quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Todos Pela Bike: Saiba como é a rotina de um atleta profissional do ciclismo

Treinos intensos, alimentação equilibrada e muita disciplina separam o amador do campeão

Os ciclistas Marcelo Moser e Ana Luisa Panini dividem a vida e o pódio nas competiçõesFoto: Rafaela Martins / Agencia RBS
Camila Iara
O Natal de 1992 foi decisivo para a vida do blumenauense Marcelo Moser. Foi naquele dezembro, aos 14 anos, que ele ganhou do pai a primeira mountain bike. Das pedaladas pelo bairro e do incentivo do cicloativista Wilberto Boos — que na época tinha em mente a criação de um grupo de ciclismo em Blumenau — surgiu a vontade de competir. Quase 25 anos depois, Marcelo — conhecido como Pinguim — continua apaixonado pela bike como se ainda tivesse 14 anos. A diferença? Ele soma em casa mais de 100 troféus e medalhas, resultado de uma vida dedicada ao esporte.
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— Não tenho ideia de quantas provas já fiz, mas acho que venci cerca de 180 corridas. Foi tudo com esforço, dedicação e força de vontade. Ao mesmo tempo em que o atleta tem uma rotina como qualquer outra pessoa, há muito sacrifício e coisas das quais se tem que abrir mão. Não posso sair muito, deixar de treinar ou comer qualquer coisa — comenta.

O dia de Marcelo começa bem cedo, com um café da manhã reforçado. Depois vem o treino intenso, que varia de duas até seis horas diárias. Em época de competição, a musculação ajuda a manter o corpo mais preparado. 

— É impressionante como o Pinguim se mantém pró-ativo e funcional depois de tanto tempo como atleta. Ele tem o biotipo físico adequado para o ciclismo, com percentual de gordura e peso total baixos e uma capacidade respiratória acima do normal. É o componente genético combinado ao treinamento adequado — avalia Fábio Cardoso, especialista em Medicina do Esporte.

Além dos pedais solitários pelas ruas da cidade, Marcelo também costuma treinar ao lado dos colegas da equipe de ciclismo de Blumenau. Foi através do grupo, coordenado por ele, que veio a vitória nos Jogos Abertos de Santa Catarina (JASC) em 2013 — o ciclista se consagrou campeão. Em março deste ano, mais uma conquista: o título de bicampeão no Desafio de Ciclismo Serra do Rio do Rastro, disputado por cerca de mil atletas. No currículo há ainda campeonatos na Argentina e no Uruguai. 

— Por mais que você tenha um trabalho paralelo ao esporte (Marcelo é formado em Direito e Educação Física, mas trabalha meio período em um escritório de contabilidade), você é atleta 24 horas por dia. Não dá pra desligar — afirma.

Mudanças que geram resultados
Namorada de Marcelo, a também ciclista Ana Luisa Panini nunca havia pensado em ser atleta até pouco tempo atrás. Foi em 2011, aos 21 anos, que a indaialense decidiu se dedicar ao esporte — tudo começou depois de ter participado de uma prova de ciclismo sem conseguir cruzar a linha de chegada. 

A evolução ocorreu ano após ano, ainda mais após o início do namoro. E o resultado também apareceu. Se Marcelo é uma das referências masculinas do ciclismo blumenauense, Ana Luisa entra para o time de estrelas da categoria feminina. Assim como o namorado, treina pesado e se alimenta regradamente de domingo a domingo. E reforça: é preciso estar à altura do compromisso.

— A gente tem um dia a dia bem diferente. Acorda sabendo que tem que treinar, não interessa se está bem ou mal. Quem quer ser atleta precisa ter a cabeça aberta pra muita coisa, e principalmente fazer mudanças — explica.

A alimentação é uma delas. Segundo a nutricionista esportiva Luana dos Santos, o percentual de gordura ideal para um atleta varia entre 7% e 14%. Pra chegar lá, uma dieta saudável e equilibrada é essencial. No pré-treino, a nutricionista recomenda carboidratos de baixo índice glicêmico — batata-doce e arroz integral são boas opções —, e em dias de prova um cardápio focado no estoque de energia:

— É importante no dia anterior à competição ficar o mais descansado possível e fazer um aporte bom de carboidratos. No dia do pedal, recomendo um bom café da manhã duas horas antes e com boas fontes de carboidratos. Vale pão integral, cereais e suco de frutas. O que importa é estar bem "carregado" — aponta. 

De amador a profissional

Para Fábio Cardoso, especialista em Medicina do Esporte, a grande diferença entre o ciclista amador e o profissional é a dedicação. Ele explica que, ao contrário de quem pedala apenas no tempo livre e concilia a atividade física com o trabalho, o atleta de verdade vive para o esporte. Além disso, há mais tempo para repouso e recuperação do organismo, ingredientes essenciais para o sucesso.

— O ciclismo não é só pedalar. É preciso focar também em outras coisas como, por exemplo, alongamento e treinamento funcional. O ciclista precisa ser devoto — diz ele.

No entanto, o médico esclarece que ser atleta profissional vai além da ideia de treinar pesado e se alimentar corretamente:

— A predisposição genética é um dos fatores que determinam o potencial de um atleta de alta performance. Grandes ligas esportivas americanas e europeias fazem avaliações genéticas antes de contratar um atleta justamente para descobrir esse potencial — explica.

Com isso em mente, quem sonha em se profissionalizar no ciclismo precisa fazer uma avaliação médica — de preferência com um cardiologista ou médico do esporte —, esportiva e nutricional antes de começar. Com o aval em mãos, Cardoso recomenda começar um treinamento específico, com acompanhamento, para alcançar o objetivo. 

A GSM Treinamento Funcional, no bairro Vila Formosa, passou a oferecer neste mês uma aula totalmente voltada para ciclistas. De acordo com Geison Müller, personal trainer, a atividade pode ser feita tanto por profissionais quanto pessoas que não costumam pedalar. A ideia é que os alunos aprendam a percorrer os mais diversos caminhos e, de quebra, façam um treino específico para braços e pernas — o que pode ajudar a prevenir lesões.

— Mesmo que a pessoa não vire um profissional, vai melhorar a postura, ganhar mais resistência e condicionamento para participar de provas — garante.
Alerta para treino 

Se a ideia é treinar na rua, o ciclista profissional Marcelo Moser recomenda pedalar sempre no modo defensivo:

— A bike não tem para-choque, então é importante estar sempre 100% atento e não achar que o carro vai parar só porque te viu. Nós, que pedalamos em velocidades muito altas, temos atenção redobrada quanto a isso porque é muito fácil se distrair e acabar sofrendo um acidente — comenta.
http://jornaldesantacatarina.clicrbs.com.br/sc/geral/noticia/2015/08/todos-pela-bike-saiba-como-e-a-rotina-de-um-atleta-profissional-do-ciclismo-4828136.html

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