sexta-feira, 27 de março de 2015

Dez razões para aderir ao bicicletaço

Flavio Moura – 20 horas atrás

1)      A promotora obscurantista queconseguiu paralisar as obras das ciclovias em São Paulo não cometeu um atentado contra os ciclistas. Ela cometeu um ato contra uma ideia de cidade.
2)      A ideia de cidade por trás da ciclovia é uma ideia de inclusão: ela pressupõe a apropriação do espaço público – a rua – pelo cidadão. Sua raiz é profundamente democrática.
3)      A manifestação de hoje não é uma manifestação de cicloativistas. Você não precisa usar roupas de lycra, tênis que engancha no pedal ou luzinha no capacete para aderir. Você não precisa nem gostar de bicicleta. Basta tomar posição sobre uma questão simples: a cidade precisa de mais ou menos espaço para os carros?
4)      A manifestação de hoje não é partidária. Você pode ter reservas com o PT. Pode não gostar do prefeito Haddad. Mas pode também querer uma cidade menos poluída, barulhenta, perigosa, árida, hostil. A ciclovia é uma reação a tudo isso.
5)      São Paulo é cheia de ladeiras, a ciclovia nunca vai pegar? Dê uma olhada nas condições climáticas médias de cidades repletas de bicicletas, como Londres, Nova York, Chicago, Hamburgo, Amsterdã. Chove metade do ano. Neva boa parte do ano. Fica escuro a maior parte do tempo. As ladeiras não são nada perto dessas condições (e as bicicletas elétricas estão mais baratas).
6)      As ciclovias estão vazias? Veja nessas mesmas cidades o que veio antes, o ciclista ou o sistema cicloviário. Em Nova York, foram dez anos entre as ciclovias e os ciclistas. A rede em São Paulo ainda não está pronta. É mais do que compreensível que muita gente ainda tenha medo. Também nunca vi ninguém reclamar de uma calçada vazia. Muito menos de uma rua vazia. Além do quê, a julgar pela adesão ao evento de hoje, não é possível dizer que haja escassez de ciclistas na cidade.
7)       A manifestação não se restringe a São Paulo. Deve acontecer em várias cidades do Brasil e em muitas do exterior. O que está em jogo não diz respeito apenas aos moradores de São Paulo. Diz respeito a um modelo que muita gente quer importar.
8)      Isso não é papo de classe média descoladinha. O bicicletário mais cheio da cidade é o Jardim Helena-Vila Mara, no extremo leste da cidade. A média diária de bikes guardadas em estações da zona leste beira 300. Na Vila Madalena, a média é de 4,7.
9)      A bicicleta é educativa para o motorista. Quanto mais bikes nas ruas, mais será necessário reduzir a velocidade dos carros, reduzindo riscos para todos. A bike é o “outro”: tem efeito civilizador.
10)  O evento será na Avenida Paulista. Ali está em construção a ciclovia que deve ser a mais visível da cidade. E falta pouco: já foram 262 km dos 400 km prometidos. Vai ser bonito todo mundo junto pela causa. E no fim ainda dá pra tomar um coco ali na banca da rua Minas Gerais.
https://br.noticias.yahoo.com/blogs/flavio-moura/dez-razoes-para-aderir-ao-bicicletaco-025750469.html
Flávio Moura, 36, é jornalista e doutor em sociologia pela USP. Foi diretor de programação da Festa Literária Internacional de Paraty (2008-2010), editor da revista Novos Estudos Cebrap (2004-2009), professor na Facamp (2003-2009) e coordenador de conteúdo on-line no Instituto Moreira Salles (2010-2012). Integrou as editorias de cultura do Jornal da Tarde, Valor Econômico e Veja. Entre 2005 e 2007, colaborou na equipe de editorialistas da Folha de S. Paulo. Desde 2012, é editor na Companhia das Letras. As opiniões emitidas neste espaço são de sua exclusiva responsabilidade

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