quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Ciclistas apontam avanços 4 anos após atropelamento coletivo no RS

Em fevereiro de 2011, um carro avançou contra grupo de ciclistas na capital.
Integrantes da Massa Crítica envolvidos lembram-se de detalhes do fato.
Rafaella Fraga e Felipe TrudaDo G1 RS
Atropelamento coletivo de ciclistas ocorreu em fevereiro de 2011 (Foto: Ricardo Duarte/Agência RBS)

Ciclistas feridos no chão gritavam por socorro logo após um carro avançar sobre o grupo durante a realização da Massa Crítica, mobilização que defende o uso de bicicletas como meio de transporte, em Porto Alegre. Quatro anos depois das cenas gravadas em vídeo na noite de 25 de fevereiro de 2011 (veja abaixo), personagens do fato lembram-se de detalhes, lamentam o risco que ainda correm pedalando nas feixas e falam em "impunidade". Ainda assim, reconhecem que o transtorno deu mais visibilidade aos cicloativistas, ou seja, aqueles que defendem a integração da bicicleta no trânsito.


"Sinto uma consequência positiva, principalmente com relação ao senso comum das pessoas que dirigem, e ao tratamento que dão aos grupos de ciclistas na rua. Houve muita discussão, e o fruto dessa discussão foi que lugar de ciclista é na rua, temos esse direito. Sempre tem um pessoal mais ignorante e agressivo, mas hoje eu ando ocupando uma pista inteira e sou muito menos buzinado", diz o desenvolvedor de software Helton Moraes, de 37 anos, um dos ciclistas atingidos pelo carro há quatro anos.

Devagar, algumas ideias avançam e o cenário muda. Ciclovias são construídas – embora sem uma rede cicloviária eficiente, segundo eles – e o sistema de aluguel de bicicletas estimula cada vez mais o uso delas. "Foi um episódio negativo, mas ao menos fez crescer o movimento do ciclismo", diz o educador físico Paulo Roberto de Souza Alves, 41 anos, que também é presidente da Associação de Ciclistas da Zona Sul da capital.
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O acidente ocorreu na noite da última sexta-feira do mês, quando costuma ser realizada a Massa Crítica, na esquina das ruas José do Patrocínio e Luiz Afonso, no bairro Cidade Baixa, quando um grupo de cerca de 100 ciclistas. O condutor buzinou, tentando pedir passagem. Sem sucesso, pisou, com pressa, no acelerador.

"Ouvi o barulho e parecia uma locomotiva vindo para cima da gente. Foi um desespero geral", recorda Alves, que conta que "por pouco" não foi atingido pelo veículo. "Vi o carro passando a um metro e meio de distância de mim. Comecei a ajudar meus amigos a levantarem do chão. Vi pessoas saindo, rastejando debaixo dos carros estacionados, machucadas", recorda o ativista, que pedalava ao lado direito do grupo. "Às vezes pensava que algo do tipo um dia pudesse acontecer e por isso ficava mais próximo à calçada", confessa.
Helton Moraes se prepara para mais uma Massa
Crítica em Porto Alegre (Foto: Arquivo pessoal)

Moraes não teve a mesma sorte. Ele conta que estava no pelotão de trás, e chegou a ser atingido pelo carro de Neis. Teve apenas um ferimento leve na mão e poucos danos na bicicleta, que usa até hoje. "Eu estava no máximo há uns 4 metros na frente [do carro]. Ele estava na velocidade baixa quando atingiu, e por isso não machucou muito. Fui empurrado por trás. Caí no chão e fui escorregando para frente", conta.

O desenvolvedor lembra que, antes de avançar contra o grupo, Neis chegou a atingir de leve um ciclista que pedia para ele não arrancar. "Vi o carro empurrando um ciclista com o para-choque. Um cliclista parou e estendeu a mão. Nessa posição, eu vi a bicicleta dele sendo empurrada. Acho que o pessoal se exaltou e começou a falar mais alto. Logo em seguida, veio o carro acelerando", contou.

Alves nega que os ciclistas tenham agredido o bancário ou batido nos vidros e no capô do carro, como alegou o motorista na época. "Ele forçou a passagem, encostava na parte de trás das bicicletas. Houve uma discussão, mas em nenhum momento vi os ciclistas batendo no carro", sustenta.

Após avançar contra o grupo, o motorista seguiu pela via, ainda vazia devido ao bloqueio que permitia a passagem dos ciclistas em sua manifestação, sem prestar socorro às vítimas. "O caminho estava livre para ele e ele acelerou muito, não tinha como alcançá-lo. Mas se ele tivesse parado o carro, não sei o que poderia ter acontecido. Um linchamento, talvez. Era um momento de fervor". Na ocasião, o bancário chegou a dizer que fugiu por medo de ser linchado.

Perigo sobre duas rodas
Na teoria, está mais seguro andar de bicicleta na capital gaúcha. Segundo as últimas estatísticas da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), o número de ocorrências envolvendo ciclistas diminuiu entre 2011 e 2014, inclusive sobre mortos e feridos. O índice, porém, é mínimo: houve queda de apenas 2% no número de acidentes no período.

Na prática, porém, não é tão simples. "Qualquer pessoa que pedala com frequência na cidade passa por situações de desrespeito que causam risco, sim", afirma o advogado Pablo Weiss, 35 anos, que também é membro da Associação dos Ciclistas de Porto Alegre.
Falta respeito pelo ciclista"
Pablo Weiss, advogado

Defensor do uso da bicicleta como meio de transporte, ele conduz diariamente a sua por um trajeto de cerca de seis quilômetros, da casa para o trabalho, e vice-versa. Isso sem mencionar as horas de lazer. "Falta respeito pelo ciclista. Tem muito motorista que acha que bicicleta tem que circular na calçada. Isso está errado", opina.

Para eles, o carro e o transporte coletivo são facilmente trocados pela bicicleta. "Evito ao máximo tirar o carro da garagem. Apenas para distâncias mais longas ou para viagens", explica Alves. "Isso se deve a vários fatores. Quanto mais o trânsito começa a ficar pesado, mais as pessoas vão buscar alternativas e ver a bicicleta como a melhor alternativa, mais rápida, mais econômica", emenda Weiss.

Moraes não abre mão do capacete com espelho retrovisor. Ele crê que as dificuldades enfrentadas por quem se arrisca a pedalar entre carros é consequência de uma característica do trânsito que reflete em todos os modais. "O trânsito é violento. O ciclista é tão maltratado quanto pedestres e outros motoristas", diz.
Ciclovia estimulam uso da bike, mas algumas
são alvo de críticas (Foto: Divulgação/PMPA)

Ciclovias e aluguel de bicicletas atraem novos adeptos
Atualmente, Porto Alegre tem cerca de 25 quilômetros distribuídos em 18 ciclovias ou ciclofaixas, de Norte a Sul da cidade. "Claro que a existência da ciclovia estimula aquele leque de pessoas que não costuma usar a bicicleta sempre, a fazer esse deslocamento. E quando ela [ciclovia] é bem projetada, aumenta a segurança do ciclista", pondera o advogado.

"As ciclovias, por menor que sejam, são ferramentas de motivação. As bicicletas de aluguel também incentivam o uso. Está faltando civilidade. O motorista, o ciclista e o pedestre, todos, fazem parte do trânsito. O ser humano precisa ver que uma vida é mais importante que um bem material", complementa Alves.

Mas há críticas. Para alguns ciclistas, a tinta vermelha utilizada nas ciclovias, com o objetivo de demarcar a área, deixa o piso escorregadio em dias de chuva. "Aqui a ciclovia vai do nada para lugar nenhum, como a gente costuma falar. Há sinaleiras em excesso, ciclovias que se confundem com calçadas, o que prejudica a relação com o pedestre, além da tinta, que deixa o piso escorregadio em dias de chuva. Tem ciclista que pedala também em dia de chuva", observa Weiss, que também relata a dificuldade para trocar de lado na ciclovia da Avenida Ipiranga, uma das principais da cidade.

O uso das 40 estações do BikePoa, com 400 bicicletas, mostra que a adesão da população é relevante. Com mais de 100 mil usuários e 500 mil viagens, o sistema de aluguel pode servir como lazer aos finais de semana, mas também como meio de transporte em algumas situações.

"Acho que isso é o início de uma transformação. Mas vai levar alguns anos para acertar os erros. Infelizmente, ainda não vai ser amanhã", avalia Alves.
Sistema de aluguel de bicicletas tem mais de 100 mil usuários em Porto Alegre (Foto: Lucas Barroso/PMPA)


fonte:http://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2015/02/ciclistas-apontam-avancos-4-anos-apos-atropelamento-coletivo-no-rs.html

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