quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Bike por dentro e por fora


Publicado: 15/12/2014 18:27 BRST Atualizado: 15/12/2014 18:46 BRST


Esse não é um texto de um ciclista. Tão pouco de um ativista de mobilidade ou de alguém que acha que TODO MUNDO tinha que andar de bike. Não.

Faz menos de 15 dias que ando de bike pela cidade, então fica claro que quase nada sei sobre esse universo. Tá, mas "então por que raios tu vai estrear seu blog no Brasil Post falando de bike?". Por que esses quase 15 dias me fizeram olhar para dentro e para fora, e isso merece ser compartilhado.

Para começar, o óbvio: andar de bike em SP não é fácil. Capacete, olhar com cuidado, "freia que tem pedestre na ciclofaixa", "ops o carro me deu uma fechadinha", "ishi essa rua é contramão".

Não, não é fácil. Sem contar as inúmeras ladeiras que alguém, habitante da Zona Oeste do centro expandido (mais precisamente Vila Madalena - isso vai fazer mais sentido a frente) tem que subir. Aff! Chegar na Paulista parece até um desafio intransponível. Outra cidade. Mas não é disso que quero tratar.

Andar de bike me fez pensar sobre questões de dentro e de fora. De mim, e da cidade.

De dentro, sobre minha vida, mente e corpo. Meu jeito pessoal de lidar com as coisas, de encarar a vida. Quando subi na bike isso ficou evidente. O jeito como comecei a usa-la e me apropriar dela. Mas também não vou estender nisso, pois o meu Strava já dá conta :D.

O ponto é o "de fora". Quando digo "de fora" digo sobre como o externo age sobre você. E nesse sentido duas coisas tomaram minha atenção e pensamentos. A primeira - e quase todo mundo já sabe de alguma maneira disso - é que a cidade de São Paulo é violenta com os "permanentes".

"Ué, perae? Não era para tu falar mal dos carros agora?". Sim e não. A Cultura do carro e do trânsito, a meu ver, é uma manifestação da cultura "trânsito de passagem ao ar livre e permanência nos ambientes fechados". Ou seja, não é proibido permanecer ao ar livre em São Paulo, mas parece não ser desejável você ficar ali. É passar e ponto. E a bike é permanecer.

Veja, apesar de ser um meio de transporte, ao andar de bike sua relação com a cidade muda (aliás, algo parecido com o que temos quando você está pedestre). Você é uma espécie de ser permanente em trânsito. Estar e ver os lugares é o que define essa relação, e nesse sentido, a cidade (e os carros) são bem violentos com os permanentes. Pessoas, faixas e bikes. Buzina, barulho e xingamentos. No meu 3o dia montado na bike fui semi-atropelado sem fazer nada (apenas no farol esperando sinal abrir). Cultura do trânsito.

A segunda coisa tem a ver com o meu bairro. Ou melhor, com a dinâmica de segregação de espaços que existe na cidade de São Paulo. Oi? Sim, tomei um enquadro. Claro, não foi o primeiro e nem o último. Mas foi um enquadro a meia noite de uma segunda-feira na rua de casa. Estava de capacete, voltando de uma pedalada (além de transporte, tenho usado a bike como forma de fazer exercício físico). Mas o que isso tem a ver? Tem a ver que sou negro. Tem a ver com "o que um negro (de capacete e bike) faz uma hora daquelas em um bairro de classe ("média") alta?". "- Pois é, moro aqui seu policial".

A abordagem foi até tranquila, os policiais foram polidos, devo admitir. E talvez tenha sido liberado mais rápido por uma série de referências de profissão, títulos, universidade, lugares onde morei, quase como uma carte de explicação (ou de intenções) do porquê estava ali, naquele bairro. Meu capacete. Veja, São Paulo tem muros invisíveis e, mesmo que invisíveis, expectativas bem visíveis, agressivas e segregacionistas acerca de onde e como as pessoas devem estar. Atrás ou dentro dos muros. O que estava eu fazendo ali?

Bom, coisas que andar de bike me trouxeram a mente. É São Paulo e a experiência de ser negro e permanente. De capacete.
http://www.brasilpost.com.br/tulio-custodio-/bike-por-dentro-e-por-for_b_6329338.html?utm_hp_ref=brazil

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