terça-feira, 7 de outubro de 2014

Contos do Otoni: Salva vidas de bicicleta

Por Paulo de Tarso bikers | 05/10/14 - atualizada às 20:12

 Nas tardes quentes de verão o sol de Olímpia se deitava mais tarde de maneira que mesmo encerrado o expediente da Gráfica Barão ainda sobrava uma quirera do dia que poderia ser aproveitada.
Minha bicicleta Merck Suisse era azul cor do céu, cor do horizonte infinito que buscávamos em nossas pedaladas e com ela  saia desembestado descendo a Rua Jorge Tibiriçá com o Paquito, meu cão, engarupado. Passava pela Sapataria Vieira onde me juntava com o Adilson e nos mandávamos pro Cachoerinha pra nadar nos seus remansos.
Eram cerca de 8 quilômetros de terra, “costelas de vaca”, areia e pedregulhos que atropelávamos ensandecidos, competindo com o sol manhoso que ameaçava se esconder pelas bandas de Guapiaçu.

Chegava-se ao Cachoeirinha por uma velha ponte de madeira que também servia de plataforma para saltarmos em um poço do rio que se formava 5 ou 6 metros abaixo. Bicicletas e roupas largadas no chão, despencávamos da ponte curtindo o vazio e na sequência o baque nas águas, ali profundas por 4 ou 5 metros. Paquito, cão nascido com vocação pra aqualouco, se despencava atrás do dono.

Numa dessas tardes de verão quando chegávamos ao rio ouvimos um alarido agitado e estranho. Gritos angustiados, pedidos de socorro! Do alto da ponte, ainda pedalando, vimos o cenário à beira do poço e entendemos o enredo. Uma família, homens, mulheres e crianças gritavam desesperados por um deles que acabara de se afogar.

Sem tempo de tirar a roupa enquanto uma vida se esvaia, saltamos da ponte e por um bom tempo mergulhamos no limite do nosso fôlego tentando encontrar alguém no fundo frio, lodoso e turvo do rio. Após um bom tempo nesta luta, esgotados e sem mais forças paramos a busca e aceitamos o fato consumado da morte do afogado. Assinamos o atestado. Paquito saiu em seguida, agitando o couro, espargindo água e se arrastando na grama, feliz.

Na época, eu era também canoeiro e tinha apoitada logo mais abaixo, cerca de uns oitocentos metros, minha canoa que mais meu sócio Pavesi, construímos com a madeira rude do tamboril. Fui buscá-la pra servir de apoio na busca enquanto Vieira tentava como podia se solidarizar com a dor, o sofrimento e o desespero  da família do afogado, ali tão perto, ali tão distante, ali tão só.

Subia o rio varejando minha canoa de volta ao poço, anoitecia, quando percebi faróis de carros cruzando a ponte e chegando ao rio. A notícia já tinha chegado à cidade e de lá vieram aqueles carros da polícia trazendo o delegado, de familiares e amigos do afogado, algum curioso talvez.

O cenário apagado e tendo no fundo o afogado foi se iluminando com os carros de faróis acesos alinhados à beira do poço permitindo que eu e Vieira entrássemos novamente em cena. Posicionávamos a canoa e enquanto a suave correnteza a movimentava rio abaixo, fazíamos uma varredura com o varejão procurando o corpo naufragado. Quando se percebia algum obstáculo, um ou outro se revezando, mergulhava acompanhando a vara até a ponta pra identificar o enrosco. Repetimos a varredura por algumas horas até que na vez do Vieira, ele voltou trazendo pelos cabelos o corpo do afogado, pálido, roxo, escorregadio e lanhado pelo varejão.

A presença da morte tornou aquela noite quente de verão muito fria. Recebemos abraços, agradecimentos, inclusive da polícia. O delegado nos pediu permissão pra anotar nossos nomes e endereço, pois nos procuraria caso precisasse de bombeiros voluntários. Isso nos aqueceu um pouco. Na época, a guarnição do Corpo de Bombeiros mais próxima ficava em São José do Rio Preto, cerca de 50 quilômetros por estradas de terra, poeira ou lama.

Agradecemos as caronas oferecidas mas preferimos voltar pedalando pela noite e seus mistérios. Eu tinha muito o que conversar com minha bike, companheira de tantas aventuras. Aquela ainda não terminara.

Enquanto nós, agora “bombeiros” fazíamos nosso serviço, a notícia de que alguém se afogara no Cachoeirinha se espalhava pela cidade. Também chegou à minha casa antes de mim. Por sorte, um pouco antes, mas o tempo suficiente pra deixar os meus preocupados, minha mãe em pânico.  Meu pai já fora pegar o carro emprestado do tio Salvador que aderiu à comitiva  e voltaram pra buscar minha mãe que iria atrás do filho, vivo ou morto. Abortaram a busca, pois nos encontramos na porta de casa. Eu chegava pedalando, triste pelo afogado, feliz por ajudar, feliz pela nomeação feita pelo Delegado, e já pensando, negociando e convencendo a magrela a pintá-la de vermelho.

Otoni Gali Rosa
Setembro de 2014
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