terça-feira, 15 de julho de 2014

Projeto de documentário português, Maria Bicicleta se propõe a contar história das ciclistas de Lisboa

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MARIA BICICLETA

Um documentário online busca retratar o cotidiano das mulheres ciclistas de Lisboa: este é Maria Bicicleta, que une a paixão pelo uso das bikes com o cotidiano de diversas ciclistas da cidade portuguesa.
"Este projeto foi iniciado em fevereiro de 2014 porque tanto eu quanto o Vitorino queríamos desenvolver trabalhos documentais no âmbito da ciclocultura" conta Laura Alves, idealizadora do projeto ao lado do fotógrafo Vitorino Coragem. "Uma vez que ambos somos jornalistas, estamos habituados a pensar em ângulo e abordagens para os temas que trabalhamos, e como eu já tinha feito trabalho com mulheres ciclistas, a ideia de fazer algo mais aprofundado, e num formato digital,surgiu muito naturalmente" conta Laura.
Durante vinte semanas, 20 perfis foram disponibilizados na página, em uma série de cinco imagens para cada uma das ciclistas. "Por limitações de tempo e de orçamento, focamos em Lisboa e Porto, cidades onde a ciclocultura está crescendo".
Nesta entrevista, a jornalista portuguesa fala sobre o documentário, a relação entre o ciclismo e as mulheres, além do uso da bicicleta em algumas cidades de Portugal:
Brasil Post: De que maneira as mulheres de Lisboa receberam o projeto? Elas estão empolgadas? Mais mulheres querem participar?
Laura Alves: Elas receberam muito bem! A maior parte das mulheres com quem conversamos eram pessoas conhecidas, do meu círculo de amizades. Contudo, houve vários contatos de pessoas que queriam participar, e pelo menos duas delas foram retratadas e entrevistadas. A única condição era que fossem mulheres que de fato usam a bicicleta no seu dia-a-dia, e não apenas como lazer. E ficamos espantados porque o feedback que íamos recebendo era muito positivo. As participantes passaram a ser carinhosamente chamadas de “Marias” e houve quem nos confidenciasse que começou ou recomeçou a pedalar por se ter sentido inspirada pela Maria Bicicleta. Isso, para nós, é muito positivo!
Qual o perfil da ciclista de Lisboa? Vocês conseguiram chegar a um perfil homogêneo, que sempre aparece nas entrevistas?
Não existe um perfil, até porque o projeto Maria Bicicleta não se trata de um estudo que nos permita avaliar as características destas mulheres dessa forma. No caso destas 20 mulheres, as faixas etárias vão dos 20 aos 40 anos de idade, todas com formação superior e com uma atividade profissional em áreas muito diversas, das artes à informática, da arquitetura à educação, do marketing à biologia... Umas com filhos, outras sem, umas mais aventureiras ou menos, umas com bicicletas mais antigas, outras com veículos mais recentes, umas que fazem questão de usar capacete, outras que não sentem necessidade dele. Ou seja, não é possível traçar um único perfil, mas todas as histórias que captamos são importantes, pois mostram os tipos de mulher que pedalam nas nossas cidades. Se tivesse de apontar uma característica em comum, talvez a atitude forte, destemida e descomplexada perante a vida.
O projeto trata da experiência feminina de andar de bicicleta em Lisboa. O projeto tinha alguma intenção feminista desde o princípio? Ele se tornou feminista depois que iniciou?
Não creio que o projeto possa ser encarado como feminista. Mas talvez seja, pelo lado em que pretende também fazer algo mais pela igualdade de gênero no que diz respeito à ciclocultura no feminino. Ainda é razão de notícia ver mulheres andando de bicicleta nas grandes cidades portuguesas como Lisboa e Porto. Na verdade, isso é uma prática muito natural em alguns meios mais pequenos, em zonas do litoral como Aveiro, onde até as mulheres mais idosas pedalam no dia-a-dia. Lisboa tornou-se algo preconceituosa e dependente do automóvel nas últimas décadas, e a bicicleta ressurgiu há alguns anos, felizmente. Gostaria muito que o Maria Bicicleta contribuísse para que, daqui em diante, ser mulher e ser ciclista fosse tão natural que não houvesse necessidade de ser assunto. E que uma mulher se sinta à vontade para andar no trânsito de bicicleta sem se sentir julgada, envergonhada ou insegura.
Muitas mulheres no Brasil sofrem preconceito e abuso verbal quando andam de bicicleta. Qual a principal reclamação das mulheres de Lisboa? E do resto do país?
Aqui também acontecem alguns abusos de linguagem e algum desrespeito, em virtude da ideia generalizada e machista de que as mulheres não sabem conduzir. Esse preconceito está tão enraizado culturalmente que as mulheres ciclistas, só porque pedalam de saia, são encaradas como alguém que não sabe o que está a fazer. Mas mais uma vez, isto é uma generalização. Eu própria já fui julgada dessa forma por condutores homens que fazem questão de “ensinar” e mostrar algum paternalismo, quando são eles que não conhecem as leis de trânsito. Muitas das mulheres com quem falamos não sentem esse assédio, pois falam até de alguma cortesia e discriminação positiva, pelo fato de serem mulheres conduzindo uma bicicleta. Outras falam de experiências contrárias. Mas talvez a principal reclamação seja comum a todos os ciclistas, sejam eles homens ou mulheres: os automóveis que não respeitam a distância mínima de segurança ao fazer uma ultrapassagem e o acharem que quem anda de bicicleta está somente a passeio e não indo para o trabalho, por exemplo.
Como os homens portugueses reagiram ao projeto?
Muito bem! Tínhamos algum receio inicial de que esta questão fosse encarada como uma espécie de "guerra dos sexos", de mulheres contra homens. Mas como na verdade nunca se tratou disso – mas sim de revelar que existem estas mulheres, que elas pedalam pela cidade e que não fazem disso uma grande complicação – toda a comunidade ciclista aplaudiu a nossa iniciativa e aguardava semana após semana pela revelação da próxima ciclista. O projeto foi encarado como necessário e foi muito elogiado, o que nos deixa muito orgulhosos.
Vocês pretendem levar o projeto para outros países que tenham muitas mulheres ciclistas, como China, França ou até mesmo o Brasil?
Este projeto foi desenvolvido em paralelo com as nossas atividades profissionais. O tempo nem sempre sobra e estender o documentário a outros países implica em outra logística e apoio financeiro. Ainda não pensamos em estender o projeto, embora já tenhamos tido abordagens nesse sentido. Quem sabe? Tudo irá depender de possíveis parcerias que possamos desenvolver no futuro.
Vocês pretendem levar o projeto para o público masculino também?
Se fizermos um trabalho com ciclistas masculinos seria necessária uma abordagem mais específica, pois os ciclistas masculinos são a grande maioria. Há algumas ideias, mas ainda nada em concreto que possa ser divulgado.
Vocês também usam bicicletas? Como tem sido o uso da bicicleta em Portugal? Nas suas opiniões, o país tem investido neste setor?
Sim. Ambos usamos a bicicleta como meio de transporte principal. Há algumas décadas a bicicleta sofreu um preconceito que se tornou complicado de ultrapassar. Passou a ser vista como um meio de transporte de pessoas pobres, que não tinham poder de compra para ter uma mota ou um carro. Em algumas partes de Portugal, mais planas, a bicicleta nunca foi abandonada, mas numa cidade como Lisboa, há seis ou sete anos atrás contavam-se nos dedos de uma mão as pessoas que se aventuravam a andar de bicicleta no meio do trânsito. Há dois ou três anos assistimos a uma autêntica explosão, quer por ser um fenômeno de moda, dado que os próprios meios de comunicação e as marcas comerciais tratam a bicicleta como sendo algo “cool”, quer porque há o exemplo de outras cidades europeias onde a ciclocultura é flagrante, quer porque as pessoas começam a ter uma maior consciência ecológica e procuram uma maior qualidade de vida nas cidades onde o automóvel asfixia os cidadãos. Mas há ainda muito a fazer, claro. Portugal está no início, começou há muito pouco tempo a planejar infra-estruturas e ciclovias, a pensar nos ciclistas; mas nem sempre estas obras são bem executadas. Desde janeiro deste ano que o código de trânsito daqui inclui algumas medidas que beneficiam os ciclistas e procuram zelar pela sua segurança na estrada e isso é já bastante positivo.
Vocês vêem a bicicleta como o meio de transporte ideal para grandes cidades?
Sem dúvida. Há muitos estudos e dados que relacionam direcamente o uso da bicicleta com uma maior qualidade de vida. Cidades com menos automóveis, onde o espaço público é devolvido às pessoas e onde se privilegiam os modos de locomoção suaves, serão sem dúvida cidades muito mais agradáveis de viver. É um engano achar que ir de carro é mais rápido. Um carro é ótimo para longos percursos ou mesmo para tarefas como carregar as compras do mês, mas para a maior parte das deslocações na cidade, uma bicicleta acaba por ser mais rápida, econômica e eficaz. Em Lisboa sofremos do mito das colinas. Como parte da cidade tem uma topografia acidentada, muita gente é incapaz de ultrapassar essa barreira psicológica, mas a verdade é que, analisando o mapa da cidade, a maior parte dela é ciclável sem grande esforço, e há mesmo estudos que o demonstram.

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