terça-feira, 1 de julho de 2014

'Falta mais deixar claro aos motoristas que bicicleta é meio de transporte', afirma cicloativista

27/06/2014

Nesta sexta-feira, 27, a cicloativista Evelyn Araripe, que ilustrou nossa capa de junho, conversou com leitores e integrantes da redação de GALILEU, em um bate-papo no Facebook. Ela falou sobre a situação dos ciclistas no Brasil (sobretudo em São Paulo), como é pedalar em grandes cidades e sobre a falta de estrutura e respeito. Confira alguns trechos da conversa:
Quais são, para você, os piores problemas que os ciclistas encontram para pedalar nas cidades? (Tiago Mali)
Eu acho que falta mais comunicação/sinalização que deixe claro aos motoristas que bicicleta é meio de transporte (reconhecido pelo Código de Trânsito) e que tem direito de compartilhar o viário público. A Prefeitura de São Paulo até fez uma campanha no ano passado, mas acho que falta mais sinalização mesmo, nas vias. Também acho que falta mais incentivo das empresas, por exemplo, fazendo vestiários e estacionamento para bicicletas para os funcionários que vão de bike ao trabalho. Com incentivos como esse, a bicicleta entra mais na rotina das pessoas e o respeito é mais natural. Acho que o maior desafio está na parte da educação no trânsito.
"O maior desafio está na parte da educação no trânsito"
Em termos de infraestrutura das cidades e programas governamentais: o que um município deve oferecer para estimular a bicicleta como meio de locomoção? (André Jorge de Oliveira)
Acho que um conjunto de infraestrutura (ciclovias e ciclofaixas, estacionamentos, sinalização etc), campanhas educativas, melhor comunicação e sinalização para os motoristas, incentivos para que as empresas estimulem que os funcionários usem a bicicleta, intermodalidade — permitindo bicicletas integradas ao transporte publico.
Falando em intermodalidade, o que você acha da experiência já implementada no metrô de São Paulo? (André Jorge de Oliveira)
Acho mais ou menos. Porque os horários ainda são muito restritos. E ainda tem o eterno problema das escadas. Você só pode subir pelas escadas rolantes, mas tem que descer carregando na escada fixa, o que eu acho super perigoso. Na Alemanha, as bicicletas podem ser levadas no elevador do metrô, por exemplo.
Você já usou a bike para se locomover em outras grandes cidades? Se sim, como eram tratados os ciclistas lá: pior ou melhor que em São Paulo? (Anderson Leonardo)
Tanto aqui no Brasil quanto em outros países. Por exemplo, no Rio de Janeiro e em Maceió, que têm ciclovias, parece que se criou a cultura do pedalar na ciclovia e na orla e se você sai da ciclovia, ninguém te respeita. Acho que como em São Paulo a gente não tem muita infraestrutura, estamos tentando criar a cultura do compartilhamento. Mas infelizmente ainda tem aqueles que acham que lugar de bicicleta é só na ciclovia. A cidade tem mais de 17 mil km de ruas... Não vão fazer 17 mil km de ciclovias. Também já pedalei em Berlim, Copenhague, Amsterdan, que apesar de ter bastante infra para a bicicleta, a cultura do compartilhamento onde não tem é muito boa.
"Como em SP a gente não tem muita infraestrutura, estamos tentando criar a cultura do compartilhamento"
Isso que ia perguntar em seguida: você sente que a implantação de ciclovias e outras vias temporárias acaba fazendo com que as pessoas desenvolvam ainda mais a ideia errônea de que "rua não é lugar pra bike"? segregar o espaço do carro do da bike seria de alguma forma prejudicial para o ciclista? (Anderson Leonardo)
Talvez, depende de como você implementa a ciclovia. Se for só pintar a faixa e deixar com que os ciclistas e os motoristas se virem, o resultado pode ser muito ruim. Agora, se a ciclovia integra um programa maior de comunicação e educação no trânsito, aí pode funcionar. Lembrando que a prefeitura acabou de instalar uma ciclofaixa no centro e já tem um monte de carros e motos usando como estacionamento. Ou seja, respeito zero! Mas também, só pintaram o chão, não tem nenhuma comunicação clara de que ali é uma ciclofaixa e muito menos fiscalização para que não haja esse tipo de desrespeito.
O cicloativismo ainda é muito confundido como um movimento que prega "apenas" que as pessoas andem de bicicleta e, na verdade, é muito mais que isso, não? O que os cicloativistas defendem ou visam buscar para a vida nas cidades e para as pessoas que não necessariamente querem dirigir uma bike? (Rafael Tonon)
Na verdade, é quase um efeito natural os ciclistas se envolverem com outras pautas, como uso e ocupação do espaço público, saúde etc. Muito porque pedalar te coloca em uma outra escala na relação com a cidade: a escala humana. Observar a cidade dentro de um carro é muito diferente do observar andando ou de bicicleta, você vai em uma velocidade que te permite entender melhor o espaço urbano, valorizá-lo e querer cuidar dele. Por isso que a maioria das pessoas que começam a nadar de bicicleta nas cidades, não se limitam ao ativismo da bike, mas ao ativismo da cidade, por cidades mais humanas, que priorizem a qualidade de vida.
"Na primeira vez que participei da Pedalada Pelada, eu achei que não teria coragem de tirar a roupa"
Qual a sensação de pedalar sem roupa? Há algum tipo de restrição ou timidez? (Sasha Cruz)
Na primeira vez que participei da Pedalada Pelada, eu achei que não teria coragem de tirar a roupa (porque isso não é obrigatório). Mas quando eu cheguei na concentração e vi todas aquelas pessoas sem roupa, se pintando, super à vontade, fiquei mais tranquila e tirei também. É só quebrar esse tabu. A nudez é mais simples do que parece... E usar nossos corpos para protestar chama muita atenção. É ótimo.
Quais as maiores conquistas do "Naked Bike Ride"? (Esley Henrique)
Acho que a visibilidade, a atenção que pedalar pelados chama das pessoas e da imprensa. A gente pedala todos os dias, o ano todo e muitas vezes parecemos invisíveis. Aí, é só pedalarmos pelados uma vez por ano e tem-se a impressão de que todo mundo olha pra gente.
Além de ganhar visibilidade, o que vocês conquistaram na prática? (Daniela Trindade)
A Pedalada Pelada não é um movimento para conquistar algo na prática. É um evento anual de pessoas que saem de bicicleta pelados para chamar a atenção para a fragilidade do ciclista por falta de políticas públicas, educação no trânsito etc. E isso dá visibilidade para esta mensagem. Paralelo a isso tem uma série de iniciativas, movimentos, ONGs que atuam diretamente com incidência política e educação para o uso da bicicleta, como é o caso da Ciclocidade e do Bike Anjo. Muita coisa já foi conquistada, vide o discurso atual da prefeitura de São Paulo sobre bicicletas. Mais infraestrutura já está sendo feita e pela primeira vez a bicicleta estará contemplada no Plano Diretor da cidade. Isso não é uma conquista da Pedalada Pelada, mas de uma série de movimentos.
Para se aprofundar no assunto, leia a reportagem "O Desafio da Bicicleta no Brasil" e acompanhe a cobertura de GALILEU.
http://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2014/06/falta-mais-deixar-claro-aos-motoristas-que-bicicleta-e-meio-de-transporte-afirma-cicloativista.html

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