segunda-feira, 3 de março de 2014

Alberto Contador: ele nunca se foi embora

Extraído de: publico.pt.desporto   Março 01, 2014

Espanhol reapareceu em bom plano na Volta Algarve, deixando boas indicações para a nova temporada.

Quem o viu no Tour, cabeça para baixo, pedalada irregular, olhar perdido, diria que o "grande" Alberto Contador estava acabado. Um quarto lugar na classificação final, debilidades nunca reveladas, uma imagem de fraqueza pouco adequada a um dos maiores da última década. E a humilhação por parte de Chris Froome e Nairo Quintana. Mesmo os seus fãs mais fervorosos deixaram de acreditar. O "momentum" tinha passado.
  "El Pistolero", dedo em riste na celebração de vitórias, atitude desafiante nos ataques aos adversários, ambição desmedida, conhecia um antes e um depois de 21 de julho de 2010. Aquele verão mudou a sua vida. Um controlo positivo por clembuterol no segundo dia de descanso no Tour, que ganhou com uma polêmica traição ao amigo Andy Schleck -atacou quando a corrente do segundo classificado, depois vencedor, saltou, não respeitando o código de ética do pelotão -deitou a perder uma carreira brilhante.
Antes desse dia, Contador era tido como o sucessor de Lance Armstrong, o mais promissor talento da nova geração. Imbatível nas grandes Voltas, com cinco triunfos incontestáveis, ganhou uma aura de invencível. Até aí. O processo arrastou-se na justiça desportiva, a condenação tardou, mas veio, já depois de vencer o Giro2011 e de ser quinto no Tour. Esteve suspenso até agosto de 2012, os resultados desde o controlo apagados. Quando voltou, venceu imediatamente a Vuelta. Os mais atentos desconfiaram. Aquela pedalada tão característica, irresistível de ver ao vivo ou não televisão, já não era demolidora, mortífera para os adversários.
Na temporada seguinte, acumulou postos de honra, esteve entre os primeiros, nunca conseguiu convencer. Depois, chegou a Volta a França   . O domínio de Froome, os "shows" de Quintana e o sacrifício de Roman Kreuziger -quantas vezes o vimos a rebocá-lo, montanha atrás montanha, evitando uma classificação pior no final - expuseram um outro Contador. Desapareceram os dentes cerrados, o olhar de soslaio para os corredores que seguiam na sua roda. Os esticões que tentava dar na corrida eram facilmente anulados. No seu discurso, acumulavam-se desculpas, sem fundamento, sem substância.
"Quando uma pessoa dá tudo e não consegue mais, não há nada a fazer", reconheceu no final. Fugiu dos restantes momentos importantes da temporada, escondeu-se no pelotão, somou resultados medíocres. "As coisas não correram tão bem quanto gostaria. Faltou-me algo", diria numa entrevista ao jornal espanhol "Marca".
Aos 30 anos e com os seus anos de ouro no ciclismo , o espanhol precisava de uma mudança imediata de planos. Refugiou-se na sua Pinto natal, nos arredores de Madrid, reuniu-se com os responsáveis da nova Tinkoff-Saxo, acertou contratações e uma nova estratégia, alinhavada, entre outros, pelo diretor desportivo português Ricardo Scheidecker. Treinou mais, mais duro, mais cedo. Começou a época mais tarde, numa das suas corridas "fetiche".
No Algarve apareceu diferente. Nem tanto na projeção mediática, inabalável, nem na atenção do público, de quem continua a ser um dos favoritos. Amável, disponível, sem ego de vedeta, mas sem deixar de o ser. Num misto de frieza e simpatia, distanciamento pragmático, calculado ao milímetro no contacto com a imprensa e o público. Consigo levou a sua entourage habitual, ou seja, Jacinto Vidarte, o seu assessor de imprensa, mas também a mulher Macarena e um grupo de amigos. Rodeou-se dos seus para voltar. Na subida para o Malhão arrancou uma vez. Pedalada decidida, dentes cerrados. Os adversários responderam. Esticou outra vez. Rui Costa tentou segui-lo. Não contente, atacou uma terceira vez e lá foi sozinho.
Entre o público, houve corações acelerados, lágrimas. Na meta, "El Pistolero" voltou. A celebração habitual. Aquele rasto de ambição desmedida, espírito de guerreiro, vontade de vencer. No pódio, rosto sério, mais fechado do que seria esperado e o ramo para Macarena. As palavras posteriores foram contidas, ponderadas, sem grandes euforias. Afinal, estava ali para ganhar a Volta ao Algarve e não ficar em segundo. Um dia depois, num intervalo da cerimônia do pódio, perguntaram-lhe "O grande Alberto está de regresso?". "Se pensam que alguma vez me fui embora… Vocês é que sabem", respondeu educado, sem esconder a irritação de quem, na sua opinião, nunca deixou de ser o melhor entre os melhores.
Autor: Ana Marques Gonçalves 
http://www.espbr.com/noticias/alberto-contador-nunca-foi-embora

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