segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O mito da cidade segura


Hoje, com as redes sociais, é fácil formar grupos para caminhadas e passeios de bicicleta -- e até mesmo para incursões noturnas

O uso da bicicleta como meio de locomoção tem sido apontado por autoridades políticas e técnicos de transporte como uma alternativa viável para a mobilidade urbana, mas, na realidade diária da população, muitos são os obstáculos que tornam o desafio de pedalar de um ponto a outro da cidade perigoso, desconfortável e, para muitos, simplesmente impraticável. 

Além do estado das ciclovias, que pecam pela ausência de manutenção constante, existem as dificuldades geradas pela topografia da cidade (algo que, dependendo do ciclista, nem mesmo as bicicletas ultraleves e com muitas marchas conseguem amenizar), as limitações relacionadas a aspectos fisiológicos e biológicos de cada pessoa, como doenças e obesidade, e também a exposição direta a elementos climáticos como o sol, a chuva e o frio. 

Outro fator de desestímulo são os roubos de bicicletas, que estão se tornando frequentes nas ciclovias, conforme noticiou este jornal (Falta de segurança - Roubos de bicicletas crescem em Sorocaba, 15/2, pág. A11). Os casos relatados pela reportagem escapam às estatísticas policiais -- já que as vítimas geralmente desistem de prestar queixa --, e revelam uma situação preocupante, uma vez que os roubos geralmente são praticados com chutes para derrubar a vítima, ameaças e outras formas de violência. 

As histórias recorrentes indicam que os ciclistas se tornaram alvos preferenciais por sua vulnerabilidade (numa viagem de vários quilômetros, fatalmente eles têm de passar por trechos desertos e escondidos) e por levarem objetos de valor como celulares e tênis, além da própria bicicleta. E o mais preocupante de tudo é que, apesar da ameaça sempre presente e da possibilidade de os roubos degenerarem em agressões ou até mesmo em homicídios, não existe perspectiva de essa situação melhorar significativamente a curto e médio prazos. As forças de segurança não dispõem de efetivos e viaturas suficientes para cobrir toda a cidade, ao passo que o alto custo do videomonitoramento praticamente inviabiliza sua utilização nos mais de 100 quilômetros de ciclovias. 

Não vai, nessas observações, qualquer traço de conformismo. A população tem direito à segurança e deve se mobilizar, por todos os meios possíveis, para pressionar as autoridades a melhorarem o policiamento e os sistemas de monitoramento remoto. Mas, sem prejuízo das cobranças políticas que podem e devem ocorrer, é importante encarar o fato de que a cidade 100% segura não passa de um mito, acalentado pelas promessas dos políticos em época de eleição e por concepções equivocadas de segurança pública. 

O crime é um traço indissociável da realidade humana, que não se prende exclusivamente a questões sociais, educacionais, legais ou repressivas. Mesmo no mais ideal dos mundos, onde todas as necessidades materiais fossem atendidas e as pessoas, sem exceção, tivessem acesso a uma educação de qualidade, alguns tipos de crimes continuariam a existir, pois sua motivação pode ser patológica, ao passo que preveni-los totalmente é impossível. 

O mais recomendável, diante de tudo isso, é que os usuários das ciclovias procurem se proteger, evitando as situações de extrema fragilidade, de que os bandidos, com sua natureza oportunista, costumam se aproveitar para impor sua vontade pela força. Hoje, com as redes sociais, é fácil formar grupos para caminhadas e passeios de bicicleta -- e até mesmo para incursões noturnas, como ocorre tradicionalmente em São Paulo, onde grupos numerosos de ciclistas se reúnem de madrugada para pedalar pelas ruas e avenidas desertas. 

Escolher os horários de maior movimento e procurar companhia para pedalar são formas eficientes de autoproteção que reduzem os riscos de uma abordagem. Em casos extremos, deixar a bicicleta em casa e ir de ônibus também é opção. O que não se pode é arriscar a própria vida, confiando em coisas nas quais não se pode confiar.
http://www.cruzeirodosul.inf.br/materia/531771/o-mito-da-cidade-segura

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