segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Médico coleciona mais de 100 bicicletas, de várias épocas e países




Sentado no sofá de seu apartamento, no bairro do Espinheiro, zona norte do Recife, Stefan Welkovic, 55 anos, fala com propriedade quando o assunto é saudosismo. “Lugar de passado é na mente. Mas o passado material merece estar ao nosso lado”. Para ele, colecionar objetos antigos trata-se de um hobby cujo privilégio é ter os melhores exemplares de um tempo que já passou. “O mérito de ser colecionador é ter bens antigos que sobreviveram ao tempo porque são de qualidade”. Obstetra e ginecologista há 32 anos, ele coleciona vários objetos, mas foi comprando diferentes modelos de bicicletas que sua paixão começou.
Sem condições de comprar um automóvel, mesmo um popular, Stefan passou a investir nas bicicletas em meados dos anos 1990. O que era uma alternativa de transporte transformou-se numa paixão. Ao invés de comprar uma bicicleta nova, o médico achou mais barato e acessível restaurar um modelo antigo, deixando-o exatamente como era originalmente. Daí por diante, não parou mais.
Para ele, quanto maior o desafio, melhor. Hoje, coleciona uma média de 115 “magrelinhas”, sendo a mais antiga de 1910. Sua coleção contempla modelos nacionais e estrangeiros, bicicletas duplas, triplas e até triciclos. Segundo ele, o sentido de adquirir bicicletas antigas está na possibilidade de resgatar o que poderia ir para o ferro-velho. “Eu já salvei muitos modelos históricos brasileiros e ingleses. Mando buscar peças em outros países, até na Tailândia e nas Filipinas. A internet facilita bastante as coisas. Também consigo através de amigos e na feira do troca-troca que acontece todo sábado, em Gravatá, onde tenho casa”, conta.
O que o estimula a obter objetos raros está relacionado ao desejo de salvaguarda da história, sentimento que atribui ao pai falecido, austríaco de origem macedônia. “Embora praticamente analfabeto, meu pai deixou muita herança cultural, o interesse pela história”, resume.
Como colecionador, seu problema é o espaço. Por isso, divide suas bicicletas entre a casa de Gravatá, a casa da cunhada, no Recife, e uma garagem que aluga no bairro de Santo Amaro, além da casa do primo Alexandre, que mora em São Paulo e também é restaurador bicicletas. “No início, a minha meta era ter 12 e não comprar mais nenhuma. Mas depois me ofereceram uma bicicleta lindíssima e eu não consegui negar. Então estipulei uma média de 20. Mas logo cheguei em 30, e não parei mais”.
As histórias que envolvem cada bicicleta são várias, de acordo com a nacionalidade, o ano e de quem as utilizou antes do médico as adquirir. A primeira que resgatou foi uma Raleigh preta, de Santa Catarina, datada dos anos 1950. O antigo dono vendia pão todos os dias com ela. Uma das que estão em Gravatá, a Peugeot Turismo 1980 de cor cinza, foi de um vigia que fazia ronda. “Toda bicicleta tem uma história. Uma vez comentei com meu filho: imagina, Junior, um terço das pessoas que andaram nessas bicicletas não estão mais vivas e elas ainda estão em perfeito estado.”
Assim como o ator e colecionador norte-americano Tom Hanks, Stefan Welkovic considera a durabilidade dos objetos antigos uma vantagem, sendo, este, um motivo para não desprezá-los. “O que sobreviveu até hoje é o melhor, não o pior. O apuro na fabricação se perdeu nos dias de hoje. Acredito que pela pouca exigência do público consumidor, e também como consequência da produção em massa. As bicicletas de hoje são muito minimalistas. As de antigamente tinham mais esmero”, opina.
Tanto é que todas as magrelinhas que o médico coleciona estão aptas para circular. Atualmente, ele utiliza cerca de dez, entre elas uma Caloi City Tour, de 2003, que considera a mais confortável para andar no dia a dia; uma elétrica, cuja vantagem é não chegar suado no trabalho, além de uma indiana, dos anos 1980. Faça chuva, faça sol, Stefan só vai ao trabalho de bicicleta, que também utiliza como meio de transporte para hábitos cotidianos, como ir ao mercado e à padaria.
Sua coleção de bicicletas é estimada por muitos, entre eles o amigo, escritor e também colecionador Gustavo Arruda, que vê a reunião de bicicletas do amigo não apenas como um hobby, mas como uma contribuição cultural. “Ao reunir as bicicletas do passado, a coleção de Stefan serve de testemunha da evolução das tecnologias utilizadas nesse meio de transporte. Possui um alto valor para pesquisa e reconstrução histórica, que clama por um espaço em um museu, para que esse trabalho perdure, além do seu criador e fãs atuais das bicicletas, entre todas as gerações futuras.”
Para quem se define colecionador de bicicletas apenas nas horas vagas, Stefan possui um elevado padrão de aquisições, que se assemelha a uma obsessão. “Eu não gosto de dizer que sou apegado ao passado, pois assim parece uma doença. Eu não morro pelas minhas bicicletas, mas também não me desfaço delas”.
Exposição
Quando questionado sobre o desejo de tornar suas bicicletas objetos de exposição, o médico revela que já foi convidado para expor na Torre Malakoff, mas ainda não abraçou a proposta. Entretanto, sua coleção já pôde ser conferida num evento didático no Colégio São Luiz, onde os filhos estudaram, e numa feira de trânsito e transporte, no Parque Dona Lindu, em Boa Viagem, organizada pelo amigo e entusiasta ciclístico Marcelo Bione.
A reação das pessoas diante das magrelinhas históricas restauradas por Stefan Welkovic é algo que alimenta ainda mais o espírito colecionador do médico. “Um dos fatores mais especiais de colecionar é compartilhar o mesmo sentimento de alegria por uma coisa antiga. É especial pra mim e também para os outros, que reagem de maneira sensível, quando se deparam com um objeto antigo”, diz o ginecologista.
Mais coleções
Stefan Welkovic também é dono de 2.000 selos de cartas, 500 canetas, das quais 90% são tinteiro, e 1.500 rótulos de vinhos que já tomou, entre eles o Zen-Zen, conceituado, nos anos 1980, como o melhor vinho nacional, que hoje o médico considera intragável.
Fonte: Diário de Pernambuco
http://www.alagoas24horas.com.br/conteudo/?vCod=190364

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