quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Crônica: O caminhar é mais belo quando de bicicleta

Por Wilame Prado
Um colega pagou R$ 4.999 em uma linda bicicleta e é um dos que ajudaram na estatística surpreendente em prol do ciclismo: houve um aumento de 300% no mercado de bicicletas no País nos últimos cinco anos, segundo a Associação Brasileira da Indústria, Comércio, Importação e Exportação de Bicicletas (Abradibi). E valeu cada centavo, segundo ele e segundo quem viu a bike de perto. Cintilam o preto e o vermelho das cores do quadro. Coroas e catracas brilham e se mostram prontas para aguentar o eterno trocar das marchas, claro, todas coordenadas pelo cérebro pensante de um câmbio Shimano dos mais competentes. As rodas com aro de tamanho 29 polegadas dão imponência à magrela, que de fraquinha não tem nada, principalmente quando se repara nos pneus grossos ostentadores de um meio de transporte bravo, imponente, pronto para os desafios citadinos, off road e até rodoviários.
Quando ele chegou ao trabalho com sua bicicleta nova, foi uma festa. As meninas paravam para olhar o seu pedalar charmoso e os mais chegados cercaram o ciclista e o seu meio de transporte para sabatiná-lo: “quanto pagou?”, “é melhor de pedalar do que a bicicleta antiga?” Há alguns anos, quando ele chegava ao serviço pedalando bicicleta, os olhares eram de desconfiança. Alguns chegaram a dizer que se tratava de fogo de palha, tendo a certeza de que as pedaladas servindo como meio de transporte entre casa e trabalho não perdurariam por mais de uma semana. Que nada: hoje, no marcador de quilometragem instalado na magrela, os números surpreendem. Assim como ele, segundo a Abradibi, 50% daqueles que compram bicicletas as usam como meio de transporte.
Além do que, o jogo se reverteu rapidamente. A bike caiu no gosto de vários funcionários. Poucos, é verdade, se atrevem a ir trabalhar pedalando bicicleta, por uma infinidade de motivos: se sentem incomodados com as roupas, com o suor e muitos precisam do carro para fazer uma rotina agitada cuja chegada ao trabalho é apenas um dos milhares de compromissos profissionais e pessoais diários. Então, para esses muitos, a alternativa é praticar o ciclismo assim que as luzes do escritório finalmente se desligam e se pode então retornar ao lar, reencontrar-se com a magrela esperando na garagem, ao lado do carro, ao lado da moto, estacionados, quietos.
Algo no ar parece estar bem claro: é mais legal falar que comprou uma bike do que anunciar a “conquista” de um carro zero-quilômetro. Os rapazes chegam ao ambiente de trabalho e torcem para que ninguém veja o seu carro zero estacionado na rua. As moças tratam logo de tirar os plásticos dos bancos. O emplacamento do carro novo do patrão é feito no mesmo dia. E, também no primeiro dia, muitos têm apelado para as estradas de terra e a consequente sujeira de lama na lataria para amenizar os possíveis efeitos negativos de algum conhecido ver a tinta impecável, o brilho denunciador de que aquele pagador de impostos é só mais um que se deixou enganar pelas propagandas das concessionárias na TV, no intervalo da novela.
Com a bike é diferente. Mais do que anunciar a compra de uma magrela, todos ficam mesmo felizes sabendo quando a pessoa vira uma adepta das pedaladas, independentemente de marca, modelo, cor. O ato de pedalar é nobre, seja numa Barra Circular, seja numa Aurumania Gold Bike Crystal Edition (R$ 249 mil). Acontece um tipo de celebração quando se diz “estou pedalando”: os que já pedalavam antes passam a minar o iniciante do ciclismo com uma infinidade de informações importantes para que não seja atropelado, não sofra com subidas muito íngremes em determinados trechos da cidade ou então que não sofra com tombos tolos. Ao lado de uma bicicleta, há mais socialização, novos casais se encontram e amizades se fazem.
Destinos mais nobres são alcançados quando se trocam os pedais de acelerar e frear de um carro por um pedal que promove o atrito com a corrente, o estímulo do girar das duas rodas e, consequentemente, o movimento de uma bela bicicleta a trafegar por aí, pelas ruas da cidade. O caminhar é mais belo quando de bicicleta. E que bom seria se houvesse mais ciclovias e políticas que estimulassem o uso das bikes nas cidades. Que bom seria.
*Crônica publicada nesta terça-feira (18) na Coluna Crônico, do caderno Cultura (O Diário do Norte do Paraná)
https://www.google.com/https://www.google.com/url?q=http://www.reporterdiario.com.br/Noticia/445566/historia-das-bicicletas-e-resgatada-em-exposicao/&ct=ga&cd=CAEYACoSMjU2NTMzNTg5NjQ4NDAwNzE0MiBkYTAzNDc4YjhiZTEwMWMyOmNvbS5icjpwdC1CUjpCUg&usg=AFQjCNE1nfOdsyzBD_YJmI6-Yrzhr8kfTQ

Nenhum comentário: