sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Relação entre automobilista e ciclista? "É a mesma de um serial killer com a sua vítima"

Laura Alves, autora de Gloriosa Bicicleta

Laura Alves
Xavier Martins
06/11/2013 | 12:00 | Dinheiro VivoLaura Alves, co-autora com Pedro Carvalho de "Gloriosa Bicicleta", fala dos vários tipos de ciclistas. Conheça o 'hipster da roda fixa'
Ver ciclistas a pedalar por Lisboa já não causa surpresa. Talvez ao pedalar pelo emaranhado de ruas da cidade procurem aquilo que Laura Alves, co-autora de "Gloriosa Bicicleta" com Pedro Carvalho, considera ser algo "emocionalmente comparável a uma experiência religiosa".
Na Europa muitos estão a trocar o carro pelas duas rodas não motorizadas e as vendas de bicletas estão a superar a de automóveis. Portugal não é alheio ao fenómeno. Em 2012 foram vendidos 113.408 carros, segundo os dados da European Automobile Manufacture's Association. Bicicletas? Mais de 330 mil.
Laura Alves e Pedro Carvalho são dois desses ciclistas urbanos. Pedro é diretor da revista B - Cultura da Bicicleta, Laura é jornalista e juntos criaram para a LeYa uma obra sobre a ciclo cultura. "Agarrámos de imediato a ideia de fazer não um livro técnico, mas com uma vertente cultural, histórica, sociológica e, claro, humorística. Até porque até ao momento não existia praticamente literatura mais ligeira sobre este tema editada em Portugal – apenas livros técnicos ou mais académicos", lembra Laura Alves.
Laura escreveu os textos, o Pedro prestou consultadoria para "as partes mais técnicas". "Contámos ainda com a colaboração de um amigo comum, o Tio, para através de uma série de dicas dar um toque de humor ainda mais mordaz ao livro", revela.

Deixam o aviso: Gloriosa Bicicleta não informa sobre os modelos mais recentes, mas porque "os verdadeiros ciclistas têm um sorriso na alma e uma pedaleira no lugar do coração". Depois do livro, conseguiram perceber porquê?

Não foi uma conclusão a que tivéssemos chegado ao escrever o livro, mas sim um estado de espírito que já nos acompanhava antes, desde que descobrimos ou redescobrimos a bicicleta. O que queremos agora é levar outras pessoas a chegar a essa mesma conclusão. Porque é que assim é? Simples. Usar a bicicleta regularmente numa vertente não competitiva, seja para fazer o chamado “commuting” (ou seja, as viagens diárias casa-trabalho), seja no contexto de uma viagem longa, é emocionalmente comparável a uma experiência religiosa. Não exagero se disser que me sinto mais em comunhão com o mundo e com a Humanidade ao pedalar numa estrada deserta, ou num caminho de terra no meio de uma floresta, do que em qualquer outra experiência de reflexão/meditação.

O livro fala das "diferentes espécies de ciclistas que se avistam na selva urbana". Vestindo a farda da socióloga de serviço, como os categorizava?

Após um árduo e apurado trabalho de campo que envolveu participar em encontros, socializar e até criar laços de amizade com alguns elementos das diversas espécies, devo dizer que não é fácil categorizá-los. Muitos deles movimentam-se entre as diferentes manadas, adoptando as roupagens de uma, mas imitando os costumes de outra... Conseguimos, porém, chegar a uma “catalogação”, sem nenhuma relação hierárquica especial, mas assumidamente e fortemente estereotipada, tendo por base o tipo de bicicleta e as motivações para pedalar - não nos esqueçamos que o humor corrosivo é uma das componentes basilares do livro. Assim, na selva urbana coabitam o “betetista alucinado”, o “carapau de corrida”, o “salteador urbano”, o “hipster da roda fixa” e o “profissional”.

Na selva urbana, o carro ainda é rei. Como descreveria a relação entre ciclistas e automobilistas?

A mesma que um serial-killer psicopata tem com a sua vítima! Não, agora a sério. No livro brincamos muito com a situação, com as relações nem sempre pacíficas entre uns e outros, mas a verdade é que não é preciso fazer um estudo muito aprofundado para concluir dos maus hábitos de cidadania e cortesia de grande parte dos automobilistas portugueses. E numa altura em que o número de ciclistas em trânsito está a aumentar consideravelmente, alguns comportamentos enraizados na cultura portuguesa tornam-se mais flagrantes, já para não dizer perigosos: as ultrapassagens arriscadas, os limites de velocidade que não são cumpridos, o estacionamento caótico, agora também em cima das ciclovias que vão sendo construídas... As alterações ao Código da Estrada que vão entrar em vigor em janeiro de 2014, embora muitas das medidas não sejam entendidas pelos automobilistas, vêm acautelar e criar mecanismos para maior protecção dos ciclistas – que, digam o que disserem, são sempre a parte mais fraca num contexto de acidente entre um carro e uma bicicleta. Estou ciente de que existem ciclistas que também devem muito à cortesia e ao cumprimento das regras de condução e de segurança, e esses irritam particularmente os automobilistas. Mas creio que o caminho para uma melhor convivência é haver cada vez mais pessoas a optar bela bicicleta para as deslocações na cidade, nas ruas e avenidas onde também circulam os automóveis. Só assim se podem desenvolver mais relações de respeito de parte a parte.

Em Lisboa, a Câmara tem vindo a investir na criação de ciclovias. Sendo uma ciclista, como as avalia? Pode-se circular sem perigo por Lisboa ou ainda é uma aventura para os fortes do coração?

Pedalar em Lisboa não é nada do outro mundo – desde que o uso da bicicleta seja feito com um olho na estrada e outro no carro que vem atrás de nós. E mais olhos houvesse, para garantir que não se cai num buraco ou não se leva com uma porta de um carro que acabou de estacionar. Grande parte das ciclovias deixa muito a desejar no que diz respeito ao planeamento de base. Não posso falar na globalidade das ciclovias lisboetas, porque não as conheço todas, as poucas que existem. Agora, a minha experiência, e o que vou ouvindo de alguns amigos, é que algumas destas vias cicláveis contêm erros crassos que põem em causa a segurança dos ciclistas que aí circulam, e que se julgam seguros dessa forma só porque não existem carros aí a circular. Buracos, carris, falta de manutenção, curvas apertadas com paragens de autocarro pelo meio, cruzamentos mal sinalizados com vias onde circulam carros, enfim, há um rol de problemas que, no meu caso, me fazem normalmente preferir as vias normais, juntamente com os carros. Além de que não existem ainda ciclovias a cobrir todo o perímetro urbano, pelo que na maior parte das vezes, ir pela estrada é mesmo a única solução para chegar a determinado destino. Uma solução que eu vejo com bons olhos, pois quanto mais ciclistas perderem o medo de pedalar no meio do trânsito, mais ganhará a mobilidade sustentável em Portugal.
Por e-mail: Vinicius Mundim

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