terça-feira, 19 de novembro de 2013

A bicicleta e a mobilidade

Luiz Henrique da Silveira – Senador da República
18/11/2013

Em setembro de 1978, quando entregamos a obra da ponte do Trabalhador, Joinville, além de "Cidade das Flores" e "Manchester Catarinense", era também conhecida como "Cidade das Bicicletas". As saídas de turno de trabalho da então maior indústria local, a Fundição Tupy, eram impressionantes: um verdadeiro mar de homens e mulheres com macacões azuis e capacetes amarelos, que em suas bicicletas, rapidamente ganhavam as ruas da cidade, buscando o caminho de suas casas.

Mas esse espetáculo também trazia um problema: essas pessoas pedalavam - sob o sol escaldante do nosso verão, ou desafiando a fria umidade dos meses de inverno - por trajetos que ultrapassavam 10 ou até 20 quilômetros, já que a maioria absoluta morava nos bairros da Zona Sul. O projeto de construção da ponte sobre o rio Cachoeira, cujo objetivo principal era encurtar a distância entre a Zona Leste, onde fica a Tupy, e a Zona Sul, onde moravam os trabalhadores, contemplava os ciclistas, com a previsão de instalação de uma pista exclusiva, entre as faixas para veículos e a passagem para pedestres.

O trecho da ponte seria uma parte integrante de 14 quilômetros de ciclovia ligando os bairros da Zona Sul como Fátima, o Guanabara e o Itaum aos da Zona Leste, como Boa Vista, Iririú e Aventureiro, que, além de promover a integração definitiva entre as áreas mais populosas da cidade, representavam uma solução de mobilidade urbana até então inédita em Santa Catarina.

O enfrentamento da questão da mobilidade nas cidades sempre foi uma preocupação que tive quando ocupei cargos executivos, mesmo antes do crescimento colossal da frota de veículos na última década, que acabou fazendo com que o problema passasse a ser um dos que mais atormenta gestores públicos brasileiros. Assim como Joinville foi a primeira cidade a contar com ciclovia, também foi a primeira a ter a tarifa única para passagem de ônibus. Até 1996, Quem morava na Zona Sul e trabalhava na Tupy, ou em qualquer fábrica do Distrito Industrial, tinha que pagar uma passagem até o terminal central e outra até o destino.

Com a construção dos terminais nos bairros, descentralizando o atendimento aos passageiros e o passe único, a vida dos trabalhadores de nossa cidade com certeza melhorou. Mas o trânsito caótico que vivenciamos diariamente em Joinville, bem como em todas as cidades médias e grandes do país, hoje, impõe aos governantes uma criatividade muito grande no sentido de encontrar soluções. O Congresso vem procurando dar sua contribuição. Nesse sentido, um projeto do senador Randolfe Rodrigues (PSol-AP) que inclui no rol das chamadas “infraestruturas de mobilidade urbana”, no âmbito do Sistema Nacional de Mobilidade Urbana, as “bicicletas públicas de uso compartilhado”.

Fui o relator desse projeto, aprovado na última semana na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), e tenho certeza de que ele também será aprovado na Comissão de Infraestrutura e no plenário do Senado.

Um dos grandes méritos do projeto é atribuir aos municípios a prerrogativa de disponibilizar à população bicicletas públicas de uso compartilhado. Cresce no mundo inteiro a adoção da bicicleta como meio de transporte nos grandes centros urbanos.

Além de descongestionar as ruas, proporciona a quem utiliza uma grande melhora na qualidade de vida. No Brasil assistimos, embora timidamente, um esforço para introduzir o modelo de bicicletas compartilhadas, inicialmente no Rio de Janeiro e São Paulo, e muito recentemente, em cidades médias.

Mas é preciso avançar na regulamentação desse modelo, para dar segurança jurídica a essa importante solução. E é exatamente essa a grande ideia que permeia o projeto. Acredito que o Senado, com trabalhos como este, mostra que apesar das criticas, tem muito a contribuir para o enfrentamento dos problemas que afetam nosso povo. Como bem lembrou o senador Randolfe, na justificativa de seu projeto, a crise de mobilidade que afeta as cidades brasileiras constitui presentemente um dos nossos maiores desafios.

Os congestionamentos do sistema viário têm levado milhões de brasileiros a perderem preciosas horas de suas vidas no interior de veículos motorizados, que se locomovem a velocidades lentíssimas. Até mesmo o conceito de hora do rush vem perdendo o sentido, uma vez que os congestionamentos já se estendem por praticamente todo o período diurno e parte do noturno, sem relação com os horários de entrada e saída do trabalho.

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