terça-feira, 1 de outubro de 2013

Seguir pedalando, mesmo apesar de...

Cada revés pode nos levar a pelo menos dois caminhos: o do medo ou o da resistência ativa

SABRINA DURAN
26/08/2013 13h34 - Atualizado em 26/08/2013 14h00

Bike Power, do cartunista Andy Singer (Foto: Reprodução/Andy Singer)

À revelia da falta de estrutura cicloviária, da falta de segurança, da violência, da omissão do poder público - de cada um dos seus setores; à revelia da maldade gratuita das finas, dos xingamentos, das buzinadas, das ameaças, das tentativas de assalto, dos roubos, dos furtos; à revelia da falta de fiscalização, de punição dos criminosos, das decisões frouxas de juízes que tratam assassinatos e mutilações como acidentes de trânsito e engrossam, assim, o caldo onde se criam novos assassinos e mutiladores; à revelia da boçalidade das SUVs com um único passageiro, do consumismo, da carrocracia, da redução do IPI do automóvel, da velocidade sempre incompatível com o ritmo natural da vida; à revelia da morte por nada, da morte pelo material, que é nada, da morte besta dos jovens, dos velhos, dos bons e dos inocentes - sobretudo dos jovens bons e inocentes; à revelia da tristeza que drena toda a nossa força quando um dos nossos vai embora… à revelia de tudo isso que nos intimida, é preciso ir pra rua e continuar pedalando.
É preciso ocupar o espaço que é nosso. Porque se a gente não ocupa, a barbárie ocupa, e a intimidação se amplia, se ramifica e se enraíza, se sedimenta e se legitima, vira política pública, manchete de jornal, capa de revista, até que um dia o medo vence. E justo o medo, que consegue ser pior do que a morte do corpo, porque mantém a gente vivo pra ter o gosto de nos matar um pouco mais a cada dia.
Pra rua a pedalar.
Em memória do Igor Gabia.

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