segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Quatro rodas (e nenhuma gasolina)

Os renomados escaladores norte-americanos Alex Honnold e Cedar Wright decidiram fazer uma expedição 100% sustentável: para chegar ao cume das 14 montanhas mais altas da Califórnia, usaram apenas duas bicicletas como meio de transporte

Por Mariana Mesquita

FOI NO ANO PASSSADO, durante uma viagem pelo Chile, que a ficha caiu para Alex Honnold e Cedar Wright, dois dos mais famosos escaladores norte-americanos na atualidade: as expedições que costumavam fazer não eram, sob muitos aspectos, lá muito sustentáveis. Vários trechos de avião e longos rolês de carro sempre precisavam acontecer para que alcançassem paredões rochosos e montanhas mundo afora, resultando em um significativo rastro de carbono. Como podiam, então, reclamar da falta generalizada de cuidado das pessoas com a natureza, se eles próprios estavam dando tamanho mau exemplo? Inspirados pelas belezas do vale chileno de Cochamó, considerado o “Yosemite da América do Sul” pela semelhança com o parque californiano, a dupla chegou à conclusão de que era hora de mudar de atitude e diminuir o impacto de suas viagens de escalada.
Após um bom dedo de prosa sobre o assunto, Alex sugeriu que eles se lançassem em uma aventura pela Califórnia para explorar as montanhas da região. Só que, desta vez, o único meio de locomoção seria a bicicleta, o mais limpo transporte terrestre já inventado até hoje. Entre junho e julho passados, os dois pedalaram por quase todo o território daquele Estado norte-americano, onde escalaram as 14 montanhas com mais de 4.000 metros de altitude que existem por lá. Sem pretensão de ser tornarem exímios mountain bikers, os dois aproveitaram muito os momentos sobre duas rodas. Mas foi escalando as montanhas que curtiram ao máximo o desafio. Em entrevista à Go Outside, Cedar conta como foi a jornada. 
 


 
 



DOSE DUPLA: Pedalar e escalar foram as grandes atrações do rolê de Cedar e Alex pela
Califórnia

GO OUTSIDE Vocês são fãs de algum atleta de ciclismo ou foram inspirados por outras viagens de bike ao pensar nessa aventura?
CEDAR WRIGHT Já sabíamos de outras pessoas que estão unindo bike e escalada, como um cara que viajou para o monte Everest de bicicleta. Mas a ideia partiu mesmo de uma conversa que nós tivemos sobre a importância de estarmos realmente conscientes sobre o meio ambiente – a começar pela escolha do meio de transporte. 

Foi difícil deixar o carro de lado e carregar todo o equipamento na bike? Você aconselharia essa experiência a outras pessoas? 
Viajar de bike é muito, muito legal. Você se move bem devagar, vê a paisagem de uma maneira diferente, interage mais com as pessoas e ainda protege o meio ambiente. Na verdade, a bicicleta é o único transporte no qual você consegue apreciar e sentir totalmente o visual a seu redor. Além disso, quando se pedala e faz força em uma subida de até 1.800 metros de altura, o cansaço é recompensado na descida. Chegamos a alcançar uma velocidade de 88 km/h num downhill, foi bem divertido. 

Como foi a preparação para a viagem? 
Não tivemos muito tempo para isso. Alex estava ocupado no Alasca com uma expedição, e eu encontrava-me em uma outra, no Yosemite. Nós combinamos uma data e simplesmente fomos. Peguei Alex em um aeroporto da Califórnia pela manhã e, 12 horas depois, já estávamos no monte Shasta, o quinto mais alto do Estado, com 4.322 metros. Terminamos a expedição no sul, no monte Langley, o nono mais alto, com 4.277 metros. 

O que acabou sendo mais difícil, pedalar ou escalar? 
Não tenho dúvidas: foi a bike. Trata-se de um esporte novo para nós, pois estamos acostumados a apenas escalar. Alex e eu até pedalamos um pouco onde moramos, porém nunca tínhamos viajado de bike por distâncias tão longas. Estamos acostumados a escalar e caminhar, mas a combinação desses três esportes nos fez sentir dores por todo o corpo, em lugares que nem imaginávamos. A bike acabou com a gente, ficamos exaustos! 

E vocês chegaram a se machucar por causa disso? 
Por causa da bike eu tive problemas no tendão de Aquiles. Já o Alex sentiu muitas dores nos joelhos. Mas foi só prosseguir mais devagarzinho que, no final, deu tudo certo. 

Qual a grande vantagem de se estar de bike nessa viagem?
As pessoas se sentem mais curiosas para saber quem é você ou para onde está indo quando te vêem de bicicleta. É como se a bike te tornasse automaticamente um cara mais legal. No meio da viagem, conhecemos outros ciclistas que foram muito solícitos conosco. A parte mais engraçada era chegar a uma cidade pequena e depois ver os moradores dando voltinhas com a nossa bike e experimentando nossos equipamentos. 
 

DEU BRANCO: Alex desbravando o monte Shasta, na Califórnia

No fim da viagem, qual foi o melhor momento para você?
É difícil escolher um momento bom. Em cada ascensão, a sensação era de que poderíamos ficar por lá um tempão olhando a beleza surpreendente das montanhas californianas e da cordilheira de Sierra Nevada. É de longe um dos lugares mais incríveis do leste dos Estados Unidos. 

O que vocês gostariam de transmitir às pessoas com essa expedição? 
Nós tivemos a oportunidade de provar que, sim, é possível vivenciar uma grande aventura de escalada sem o uso de um carro. Essa foi a grande sacada do nosso desafio. Eu estou muito orgulho de tudo o que passamos. Espero que as pessoas se sintam inspiradas e possam ter experiências tão incríveis quanto essa. E deixem seus carros na garagem.
 
(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de setembro de 2013)

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