quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Existe auto escola, mas não existe "bici escola"

Se mesmo assim não conseguimos garantir a qualidade dos motoristas, imagine como é a situação dos ciclistas!
A aquisição da carteira de habilitação é quase um marco na vida de todo brasileiro que é induzido a querer dirigir assim que completa 18 anos. Não há maiores questionamentos sobre este ritual preparatório: o cidadão deve passar por uma auto escola, onde tem aulas teóricas e práticas, e depois deve ser aprovado numa prova do DETRAN, também teórica e prática. Tem até um tal de “Exame Psicotécnico”, que teoricamente serve pra ver se a pessoa tem um mínimo de capacidade e equilíbrio cognitivo. É durante este período que você aprende a ligar o motor, passar as marchas, virar o volante, olhar nos retrovisores, executar manobras diversas e aprender o geral de como funciona um carro, bem como estuda e compreende o funcionamento lógico da organização das ruas e as leis que regem este funcionamento.
Todo este treinamento visa não só ensinar a pessoa a usar um carro, mas também a padronização do comportamento dos motoristas, de forma a tornar o trânsito mais previsível e seguro. Mesmo assim, como todos sabemos e não é nenhum exagero ou radicalismo, não é bem isso que acontece. Não é nada raro ver motoristas fazendo coisas que definitivamente vão contra o que foi ensinado nas auto escolas. Andar na contramão é tecnicamente difícil, e por isso acontece pouco, mas exceder os limites de velocidade é algo tão comum que até reclamam quando existe fiscalização. Também é comum vermos ultrapassagens pela direita, carros estacionados em locais proibidos, motorista que não respeita as preferências, sinais são furados e a placa de PARE é praticamente ignorada.
Agora pense como se faz pra se tornar um ciclista, ou como eu prefiro dizer, pra usar uma bicicleta. Você vai a uma loja, compra uma bicicleta, e pronto: você pode sair nas ruas com seu novo veículo.
Mas não existe nenhum curso de preparação para ciclistas. Não existe prova para ciclistas. Não existe carteira de ciclista. Não existe nada. O uso da bicicleta está devidamente regrado pelas leis de trânsito, mas não existe nenhuma entidade oficial que ensine esta parcela do tráfego nas ruas. Ou seja, a imensa maioria dos ciclistas não tem a menor informação sobre como se deve transitar, e então agem de acordo com o que ouviram falar, ou com o que acham que é mais seguro, e usam suas bicicletas usando critérios vagos de conforto e eficiência, que invariavelmente estão longe do ideal. Fazendo isso, transformam o uso da bicicleta em algo esquisito, inadequado, improvisado, inseguro.
Como ciclista consciente e bem informado, é frustrante ver gente pedalando de maneira completamente equivocada, fazendo da pedalada um martírio e um risco em vez de um prazer. Me dá pena ver gente pedalando com o pneu murcho, a corrente enferrujada, as marchas erradas, os freios desregulados, o banco baixo demais, as rodas tortas, indo pela contramão, na calçada, ou no cantinho da pista quase que pedindo desculpas ao mundo por invadir o precioso espaço das ruas. Mas não havia ninguém para ensinar elas quando elas precisavam aprender.
Oras, o uso da bicicleta é pra ser algo prático, fácil e prazeroso. Não é pra parecer uma completa improvisação de recursos e esforços. É pra te fazer sentir bem, relaxado, tranquilo, e não pra te fazer ficar tenso, com dores no corpo e nervoso. De bicicleta você deveria ser capaz de percorrer mais de 10km com tranquilidade, e não cansar logo nos primeiros kms por causa de uma bicicleta mal regulada. Pedalando você pode – e deve – tranquilamente se integrar ao fluxo das ruas, e não se sentir e se comportar como um invasor, muito menos ir contra. Foi com esta motivação que fundei o coletivo Bike Anjo em Florianópolis, 2 anos atrás.
Logoanjo
Bike Anjo é um grupo de ciclistas experientes que ensinam pessoas comuns a usar a bicicleta no dia a dia com segurança e praticidade, e sem virar nenhum atleta. Ensinamos às pessoas desde como escolher uma bicicleta, as primeiras pedaladas, a mecânica básica, até as leis de trânsito e as dicas de como se portar no trânsito de forma a não só garantir a sua própria segurança mas também transmitir essa confiança aos outros usuários da rua. Sabemos que é possível reduzir muito os riscos e conflitos do trânsito simplesmente sabendo se comunicar com os motoristas e sendo previsível. Sabemos que os ciclistas têm muitos direitos, mas também têm muitos deveres. Outra hora conto mais sobre a história do coletivo, que começou em São Paulo e hoje já existe em mais de 50 cidades do Brasil.
Mas somos um grupo de voluntários, e atendemos individualmente. Ou seja, transformamos as vidas das pessoas, mas temos um alcance muito modesto. Esperamos conseguir aos poucos difundir os ensinamentos a uma parcela considerável da sociedade, e uma de nossas vontades é que o uso da bicicleta seja ensinado nas escolas para todos os alunos. Afinal, crianças já podem pedalar, e seria bom pra todo mundo se elas fossem de bicicleta pra escola e não dependessem da carona dos seus pais (que, de fato, é o que gera boa parte dos engarrafamentos nos horários de início e término das aulas). Buscamos plantar as sementes para que então a educação e conscientização possam se espalhar de forma natural.
Faço novamente um convite, idêntico ao que fiz no meu primeiro post: Experimente usar a bicicleta no seu dia a dia! Chame um Bike Anjo!
Até a próxima,
Vinícius

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