terça-feira, 8 de outubro de 2013

Atividade física versus depressão


Publicação: 06 de Outubro de 2013 às 00:00

Jorge Boucinhas - Médico e professor da UFRN - boucinhas_jc@hotmail.com

Conclui-se hoje a revisão do interessante tema da possibilidade de emprego da atividade física no combate à tão desgastante depressão.

Aconselhar um programa regular de exercícios físicos para um paciente já se tornou algo muito corriqueiro para os profissionais de saúde, especialmente visando a redução dos riscos cardiovasculares, porém é menos usual fazê-lo especificamente para os que padecem de depressão e ansiedade, embora os benefícios neste caso já estejam claros.    Trata-se de possibilidade aberta a todos e não se precisa mais do que um investimento de meia hora três vezes por semana, importando mais a regularidade que a intensidade. O importante é começar, e começar HOJE, não havendo algum horário mais conveniente que outro, podendo ser pela manhã, pela tarde ou pela noite. 

Mesmo quando se está convencido de que o exercício regular é importante, por vezes parece que nada pode ser mais difícil do que conseguir sua incorporação ao quotidiano vital, e ainda mais o é quando se está ansioso ou depressivo. Não obstante, algumas sugestões triviais conseguem tornar mais fácil vencer a luta para transformar-se num ser fisicamente mais ativo.

Importa muito ter companhia. A grande maioria das pesquisas sugere que o exercício feito junto com um grupo de conhecidos e amigos é mais eficaz do que o feito isoladamente.   Quando um grupo se dedica ao mesmo esporte, o suporte e o incentivo recíprocos podem fazer enorme diferença. A prática gregária pode oferecer boa motivação nos dias de preguiça ou quando há um convite de outrem para uma passada pelo bar.  O perigo neste caso somente reside no risco de ter encontrado companheiros em muito melhor forma física, o que, logo de entrada, conduz à desmotivação.

Deve-se, sempre, ter em mente que não é preciso exagerar no esforço. O que mais parece importar é a regularidade com que se o faz.  Diversas investigações indicam que o menor volume necessário para afetar o cérebro emocional do indivíduo comum seria de vinte minutos de exercício três vezes por semana.  Tal elemento, o tempo de duração, parece importante, mas não o parece a intensidade do esforço.  Obviamente, como soe acontecer com certos remédios, os benefícios, por outro lado, podem estar na proporção da “dose” de exercícios.  Quanto mais severos os sintomas da depressão e da ansiedade, mais regulares e frequentes devem ser. Cinco sessões por semana seriam, então, melhores que três.  Outrossim, aí entrando já o elemento intensidade, uma hora de bicicleta tem mais chance de ser eficaz do que vinte minutos de caminhada constante.   Mas o pior seria tentar pedalar na bicicleta até ficar cansado demais e depois desistir totalmente.   Nesse caso, como em muitos outros, uma razoável caminhada, desde que assídua, é incomensuravelmente mais eficaz.  Quando a capacidade física melhorar, fruto do próprio treinamento, poder-se-á correr, aos poucos cada vez mais rápido e por maiores distâncias.   Mas não é, em absoluto, obrigatório!

Agora, um dado muito importante: ao contrário da voz geral e das mais comuns orientações de muitos “trainers”, a única pesquisa até agora disponível não observou diferença maiores entre exercícios “aeróbicos” (marchar, correr, nadar, pedalar, jogar tênis) e exercícios “anaeróbicos” (tendo como maior representante o levantamento de pesos). O estudo crítico, publicado no British Medical Journal (a mais conceituada revista médica inglesa), conclui que são igualmente eficazes no que diz respeito ao alívio dos sintomas de depressão.  Quem quiser -e puder- “levantar ferro” que “malhe”!

Ah!  Sempre se deve optar por uma atividade que seja agradável para a pessoa. Quanto mais se parecer com uma diversão tanto mais fácil será sua manutenção.  Escolher uma atividade que se sinta como um prazer. Não se obrigar a fazer ginástica em Academia se se preferir nadar ou surfar. O único exercício “inadequado” é não se exercitar!    Quem adorar ping-pong (tênis de mesa) e odiar correr, não deve praticar corrida. Caso o faça, são muitas as chances de abandonar na primeira oportunidade.

Uma dica geralmente bastante útil: uma bicicleta estacionária, a qual muitas vezes é comprada para ser fadada a servir apenas como cabide adicional de roupa, pode passar a ser útil quando se a coloca em frente à TV e se exibem filmes de ação quando do começo da execução do exercício. Isto tem várias vantagens. Primeiro, bons filmes distraem e fazem esquecer a passagem do tempo e a meia hora de atividade passa num átimo.  Segundo, filmes de ação, com música excitante, tendem a ativar o organismo e fazem o indivíduo desejar se mexer. 

E agora? Que está o leitor esperando para melhorar seu humor com auxílio de uma boa dose de um dos melhores remédios, a atividade física? Em frente: trata-se de um “barato” inofensivo, aliás, mais que isto, muito saudável!

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