segunda-feira, 19 de agosto de 2013

No ar, novos vídeos da campanha de respeito ao ciclista/ SP

Novos vídeos contemplam temas como ultrapassagem segura e posicionamento correto do ciclista na faixa (Foto: Reprodução)

Respeito Bicicleta: Ultrapassagem



Respeito Bicicleta_Faixa



Respeito Bicicleta_Atenção



Campanha da prefeitura torna ciclista menos "invisível"

Na Bike comenta pontos importantes do comercial institucional lançado ontem pedindo respeito ao ciclista

SABRINA DURAN
12/08/2013 12h49 - Atualizado em 12/08/2013 14h56
Ciclistas são mostrados como pessoas comuns, e não atletas paramentados para a competição (Foto: Reprodução)
A prefeitura de São Paulo lançou ontem (11/8) uma campanha em vídeo sobre o respeito aos ciclistas nas ruas. O comercial tem 30 segundos e traz informações essenciais para a segurança do ciclista, como a distância de um metro e meio que os motoristas são obrigados a respeitar ao passar ou ultrapassar quem está pedalando, a redução da velocidade ao realizar esta manobra e a necessidade de o ciclista ocupar toda a faixa, como outro veículo qualquer, para ter mais segurança.
A campanha, inicialmente veiculada na TV e nos telões das estações de metrô, foi feita com ciclistas que pedalam pela cidade diariamente, entre os quais, uma recém-entrevistada do blog, a produtora Sílvia Ballan e sua filha Nina. Segundo informações do site Vá de Bike, a campanha terá versões para rádio, impresso, redes sociais, TVs de ônibus, pontos de ônibus “e possivelmente os relógios de rua”.
Telão na estação Pinheiros do Metrô exibe campanha lançada no domingo, 11/agosto (Foto: Sabrina Duran)
Esta é a primeira campanha institucional feita pela atual administração que afirma e legitima a presença do ciclista nas ruas. A iniciativa da prefeitura foi resultado de uma reunião que o prefeito Fernando Haddad teve no dia 22 de março com ciclistas, onde ficou definida a criação da campanha e a consultoria do grupo presente na reunião para a criação dos comerciais.
Na Bike fez uma breve análise do conteúdo que começou a ser veiculado ontem.
 PONTOS POSITIVOS
1. A administração consultou os ciclistas: esta foi a condição essencial para que os criadores da campanha acertassem no tom da peça institucional, passando informações relevantes para a segurança de quem pedala e retratando o ciclista urbano sem estereótipos. Não se administra uma cidade de dentro de um gabinete, sem ouvir as demandas concretas dos cidadãos. Quando isso acontece, vemos surgir aberrações como as novas paradas de ônibus feitas de vidro, verdadeiras estufas para quem espera o coletivo e que vem gerando reclamações de usuários, e a campanha da prefeitura e CET Homem Faixa e Homem Zebra, que culpa o pedestre pelo próprio atropelamento.
2. Ciclistas são mostrados como pessoas comuns: não paramentar os ciclistas que aparecem no vídeo com roupas de competição foi essencial para mostrar a realidade de quem pedala pela cidade diariamente e não é atleta, necessariamente. Alguns motoristas tendem a encarar com mais “seriedade e respeito” – como se estivessem lidando com um profissional – quem pedala com roupa de treino. Nada mais preconceituoso e equivocado. A maioria das pessoas que usa a bicicleta como meio de transporte veste-se com roupas do dia-a-dia, e este fato não as torna menos aptas a pedalar nas ruas e nem com menos direitos do que aqueles que pedalam com roupas de ciclismo.
3. Informações essenciais: talvez o maior mérito da campanha seja transmitir informações fundamentais para a segurança de quem pedala, como a necessidade de o motorista reduzir a velocidade e guardar distância de um metro e meio do ciclista ao passá-lo ou ultrapassá-lo. É justamente o desrespeito a essas duas obrigações que transformam o ciclista em vítima e o motorista em homicida. Além disso, outro ponto essencial da campanha é mostrar o ciclista ocupando a faixa inteira, o que é mais seguro, em contraposição a pedalar no canto da faixa ou no meio-fio, como querem alguns motoristas e acreditam alguns ciclistas menos experientes.
Ciclista ocupando a pista da forma mais segura e setas indicando a distância que os motoristas devem respeitar: as duas informações mais importantes da campanha. (Foto: Reprodução)
 O QUE PRECISA SER REVISTO
Após mostrar qual deve ser a postura do motorista em relação ao ciclista, o video traz a voz do locutor dizendo: “já os ciclistas devem ficar atentos à sinalização e sempre usar os acessórios de segurança”. A frase, inserida aos 14 segundos do vídeo, está absolutamente correta, e o que está por trás dela é a intenção de fazer uma campanha que seja 50/50 - 50% do conteúdo apontando as obrigações do motorista, e os outros 50% ressaltando as obrigações do ciclista.
O cálculo seria válido se nosso trânsito fosse realmente igualitário, dando a motorizados e não motorizados a mesma chance de ter todos os seus direitos respeitados e seus deveres cumpridos. Mas não é assim que funciona. Aqui, a hegemonia dos motorizados é clara, seja pelo investimento massivo (e histórico) em infraestrutura para automóveis, seja pela ausência de infraestrutura e sinalização para ciclistas e a fiscalização e punição deficiente contra os motoristas que ameaçam a vida de quem pedala.
Justiça não significa, necessariamente, paridade. E a relação ciclista/motorista é bem clara nesse sentido: por sua fragilidade inerente e histórico desrespeito aos seus direitos, os ciclistas devem, primeiro, ter seus direitos resguardados sistematicamente pelo poder público, e os motoristas devem ser lembrados sempre das suas obrigações de protegê-lo. Em um cenário desigual, é preciso dar mais chances a quem tem menos, até que as relações se equilibrem e se possa cobrar os 50% de cada uma das duas partes sem o risco de onerar a parte mais fraca.
Ser justo não significa, necessariamente, dar a todos o mesmo tratamento (Foto: Reprodução/internet)

A campanha "ideal" para o atual cenário - se é que ela existe - deve ser um permanente lembrete aos motoristas de que devem proteger os mais frágeis no trânsito. É importante ressaltar, contudo, que ainda que São Paulo alcance um cenário harmônico de respeito aos ciclistas, estes serão sempre mais frágeis do que os veículos motorizados pela sua própria estrutura, e a não paridade na defesa intransigente dos seus direitos será sempre necessária para que a justiça exista.
FALTOU DIZER
É inócua a "obsessão" que gestores públicos e setores da imprensa têm em falar dos equipamentos de segurança (capacete, óculos e luvas, em geral) como responsáveis pela segurança do ciclista no trânsito. Esses equipamentos jamais serão úteis para guardar a integridade física do ciclista se os motoristas não respeitarem as regras básicas de convivência. E isso não é descaso com equipamentos de segurança, e sim um norte para o que deve ser prioridade em campanhas institucionais como a que começou a ser veiculada pela prefeitura.
Se o objetivo máximo do vídeo em questão é garantir a proteção ao ciclista, muito mais importante do que falar sobre equipamento de segurança é falar sobre a necessidade de quem pedala sinalizar com os braços suas intenções de mudança de faixa, conversões e o pedido de redução da velocidade do veículo que vem atrás. Ao menos nesse vídeo, faltou transmitir essa informação essencial.
IMPORTANTE PASSOSem dúvida, a campanha da prefeitura é um passo importante para legitimar a presença do ciclista nas ruas. Presença esta que já é legitimada pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB), mas historicamente ignorada pelas políticas públicas carrocratas. Com esta iniciativa a prefeitura torna o caminho da segurança um pouco menos "marginal" para os ciclistas urbanos. Esperamos que haja continuidade nas campanhas, investimento em infraestrutura, fiscalização e punição de motoristas infratores. Pacificar o trânsito não é coisa de uma campanha nem de um mandato. É exercício constante de gestor comprometido com o interesse dos cidadãos, e não da indústria automotiva.

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