quarta-feira, 19 de junho de 2013

Moda da bicicleta gera alta no faturamento

16 Jun 2013 . 09:45 h . Rosana Villar . 

Vendas crescem mesmo com menor volume produzido
[ i ]Novo perfil do mercado foi responsável pela adaptação das linhas de montagem
Manaus - A popularização da bicicleta como meio de transporte de baixo custo e viável ecologicamente tem influenciado a produção das indústrias instaladas no Polo Industrial de Manaus (PIM), que modificaram o perfil produtivo para oferecer produtos de maior valor agregado. Apesar de o número de unidades produzidas cair, o faturamento do setor cresce a cada ano.
Para continuar avançando e atraindo novas fabricantes, é preciso investir em desenvolvimento de mão de obra e de uma indústria componentista alinhada com as novas tecnologias, avalia o diretor executivo da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo), José Eduardo Gonçalves.
Segundo dados da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), a quantidade de bicicletas produzidas no PIM em 2012 foi 1,5% menor que o volume fabricado no ano anterior, passando de 919.363, para 905.334 unidades no ano passado.
O faturamento, no entanto, não segue a mesma linha. No primeiro trimestre deste ano os ganhos das indústrias de bicicletas do PIM já chegam a US$ 30,9 milhões, valor 4,74% superior ao registrado no mesmo período de 2012, quando o crescimento no faturamento havia sido de 10,7%.
“As pessoas estão buscando bicicletas com maior valor agregado, que são fabricadas com materiais nobres, como alumínio e fibra de carbono, com marchas e um design mais moderno, arrojado. Tudo isso resulta em um produto de melhor performance”, observa José Eduardo Gonçalves.
Para o dirigente, esta busca por produtos de melhor qualidade é impulsionada, principalmente, pela popularização da bicicleta como solução para os problemas de mobilidade urbana entre todas as classes sociais.
“A bicicleta tem conquistado seu espaço na cidade e é um dos veículos mais respeitados atualmente, porque ela tem três características imbatíveis: é barata, tanto para comprar como para manter, não agride o meio ambiente e faz bem para a saúde do condutor. Nenhum outro veículo reúne todas estas qualidades”, observa.
O Brasil conta atualmente com uma frota de 70 milhões de unidades, aproximadamente, o que significa uma bicicleta para cada três habitantes.
De acordo com dados da Abraciclo, 50% das bicicletas vendidas no Brasil são usadas para a locomoção, 32% para o segmento infantil e 17% exclusivamente para recreação e lazer.
Para o diretor executivo da OX Bikes, David Peterle Santiana, esta mudança do perfil foi a principal responsável pela adaptação das linhas de montagem.
“Antes as bicicletas eram usadas apenas para o lazer de final de semana. Agora, com esta necessidade de locomoção, elas são utilizadas por mais tempo e por distâncias maiores, então tiveram que se tornar mais duráveis e resistentes, com materiais e componentes de mais qualidade”, explica.
O gerente de vendas da Prince Bikes, Tarciso Amoedo, conta que esta procura vem crescendo também devido à migração de clientes que já utilizam a bicicleta e buscam evoluir no segmento.
“Para o consumidor, a primeira bicicleta tem uma configuração mais básica, da segunda em diante ele vai querer uma melhor, mais equipada, mais confortável e daí em diante só vai adquirir um produto mais sofisticado”, avalia.
De acordo com o representante, esta diversificação de público tem sido benéfica para o setor, que busca novas soluções tecnológicas e profissionais mais capacitados para atender a demanda. “Em termos de tecnologia, as perspectivas são as melhores possíveis”, observa.
Modelos elétricos estão melhores e mais leves
As bicicletas elétricas são produzidas no PIM desde 2010, mas no último ano o mercado viu surgir novos modelos, menores, mais leves e com maior tecnologia embarcada.
Para o diretor executivo da OX Bikes, o segmento tem grande potencial e pode servir como porta de entrada para que pessoas sedentárias tomem gosto pelo ciclismo.
“As vezes a pessoa tem preguiça de pedalar, ou acha que vai se cansar muito. Mas quando diz que a bicicleta ajuda, ele já acha mais interessante. Com o tempo, o preparo físico da pessoa melhora e ela vai precisando cada vez menos da assistência do motor”, conta.
A empresa possui atualmente cinco modelos de bicicletas elétricas, todas equipadas com o sistema de pedal assistido, onde para fazer o motor funcionar é necessário que o condutor pedale, mas com assistência que vai de 0 a 90%. “Assim, a pessoa começa com 90% de assistência, onde ele não precisa fazer quase nenhum esforço, e vai diminuindo essa ‘ajuda’ conforme adquire resistência”, afirma.
O produto é equipado com bateria de lítio e está disponível também na versão dobrável. O preço sugerido vai de R$ 2.790 a R$ 2.990.
Produtos de ponta têm forte concorrência com asiáticos
Além de ser o que mais cresce, o segmento de bicicletas ‘topo de linha’ é também o que mais sofre com a concorrência das importadas, vindas principalmente da Ásia. Das 4,5 milhões de bicicletas que devem entrar no mercado brasileiro este ano, segundo estimativa da Abraciclo, 330 serão importadas.
“O governo aumentou o Imposto de Importação de 20% para 35% há dois anos, então as lojas deixaram de importar os modelos mais baratos, mas aumentaram a importação dos modelos mais caros”, disse Eduardo Gonçalves. Segundo levantamento do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MIDC) de 2012, a China é o país líder em exportações de bicicletas para o Brasil. Seguido de Taiwan, Camboja, Indonésia e Cingapura.

Os itens deste segmento custam de R$ 700 a R$ 30 mil, no caso de produtos de competição ou relacionados a grifes de alta-costura, como Chanel e Hermés.
Para o representante da Abraciclo, é preciso investir no desenvolvimento de indústrias de componentes para que o segmento continue a evoluir. “Precisamos ter no Brasil fornecedores de componentes de alto valor agregado. Não temos nenhuma fabricante de câmbio, por exemplo, uma coisa que é fundamental”, afirma.
Hoje em dia o Polo de Duas Rodas conta com apenas três fabricantes Caloi, Prince Bikes e OX, que juntas já produziram 192.543 bicicletas este ano, sendo 23.405 sem marcha e 160.138 com marcha.

O diretor da OX afirma que outra grave deficiência está em encontrar mão de obra capacitada. De acordo com Santiana, a empresa realiza a solda de todos os seus quadros de alumínio em São Paulo, pois não encontra profissionais com este nível de especialização em Manaus.
Não existe, atualmente, em Manaus nenhum curso de capacitação em mecânica de bicicletas, por exemplo, enquanto que para o setor de motocicletas existe pelo menos três opções de cursos.
“Temos dificuldade também em manter este trabalhador. O percentual de faltas aqui em Manaus é cinco vezes maior que o de outros lugares do Brasil. Chegamos a ter 15% de faltosos em um mês”, lamentou.
A Suframa não informou o número preciso de empresas com projetos de instalação em andamento no PIM, mas afirmou, em nota, que tem recebido diversas consultas do segmento e que a Houston Bike, segundo maior fabricante nacional, já tem projeto aprovado no CAS e deve iniciar suas operações fabris no PIM a partir de 2014.
“Acreditamos nessa mudança comportamental da população e no crescimento do mercado formal de bicicletas, onde somente as empresas sérias e comprometidas com a qualidade permanecerão”, completa o gerente da Prince Bikes, Tarciso Amoedo.

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