segunda-feira, 10 de junho de 2013

Ciclistas gastam até R$ 3 mil para reformar 'bikes' antigas

VANESSA CORREA

DE SÃO PAULO
9/06/2013
Bicicleta está na moda. As vintages, então, duplamente na moda. Há importadas, inclusive, que saem diretamente da fábrica com ar retrô.
Mas, para alguns ciclistas nostálgicos, legal mesmo é reformar aquela magrela enferrujada na garagem. Quase sempre uma Caloi 10 ou uma Caloi Ceci, onipresentes na memória de quem cresceu nos anos 1970 e 80.
As primas Carolina, Isabel e Valéria Lopes têm mais de 20 anos e ainda andam de Ceci. Os modelos, produzidos a partir de 1978 (uma linha "exclusivamente para as mulheres"), não são mais cor-de-rosa, embora tenham a famosa cestinha, agora de palha.

Bikes vintages

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Christian von Ameln/Folhapress
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Caloi Berlineta dobrável que passa por restauração
A advogada Isabel, 33, herdou a bicicleta de uma tia e manteve a cor preta original. Já a estilista Carolina, 25, e sua irmã, a administradora Valéria, 26, compraram as suas e mandaram pintá-las --uma de bege, outra de verde-musgo. Adicionaram guidões e selins com estilo antigo.
"Acho [a Ceci] a mais bonita de todas, e é clássica", diz Carolina. O pacote completo saiu por R$ 1.800 --o modelo retrô custou R$ 190, e a reforma (peças novas e pintura) consumiu o resto da grana.
Mais em conta do que o modelo clássico 0 km. Esse custaria cerca de R$ 4.000, podendo chegar a R$ 10 mil.
ANTES TARDE
O estilista Amauri Caliman, 51, não teve uma Caloi 10 "naquele momento em que todo mundo tinha, nos anos 1970". Já hoje tem quatro.
Reformou sua primeira há um ano e meio. Tomou gosto. O exemplar do modelo esportivo lançado em 1972, o primeiro com dez marchas no país, estava parado na garagem do dono de uma padaria da Vila Madalena.
"Ofereci R$ 500, pensei que estava legal, mas estava toda estropiada. Mandei desmontar inteira, pintar. Não quis manter as características originais, quis dar outra cara."
E lá se foram R$ 3.000.
O advogado Antônio Crescenti, 63, prefere se espelhar no passado. Ele pedala pela ciclofaixa da avenida Tiquatira, na zona leste, com sua Caloi 10 original, linha Sportissima. A "bike" foi repintada "igualzinha" como era, na cor ouro-velho; o grafismo com o nome do modelo, refeito à perfeição por um especialista.
Mais purista é o restaurador e colecionador Marcos Perassollo, 58, que já perdeu as contas de quantas bicicletas voltaram ao original em suas mãos nos 30 anos de ofício --calcula centenas.
Ele busca sempre peças originais e retoca com aerógrafo (espécie de pistolinha que realiza pinturas por meio de ar comprimido) as partes mais deterioradas. "Meu ideal não é que fique parecendo novinha, mas que pareça que não foi feito nada."
Em sua oficina no Morro do Querosene, na zona sul, Marcos mantém mais de uma centena de antigas "de verdade". "Caloi 10 e Ceci eu não considero antigas", afirma.
Segundo Marcos, entre as anteriores a 1970, a marca mais fácil de ser encontrada no Brasil é a inglesa Phillips (das quais tem dezenas). Mas ele diz gostar mesmo é das italianas e francesas de corrida, como as Cinellis ou as Peugeot.
DESAFIO
Para quem restaura, a paixão é também um desafio. Mário Canna, da loja Ciclourbano, diz que "a graça da coisa" é descobrir onde encontrar peças originais de cada modelo.
Sites como E-bay e Mercado Livre ajudam a garimpar algumas delas. Mas há os especialistas em itens específicos, como os velhinhos ingleses. "Eles têm pilhas e pilhas com decalques de época, mas não vendem para qualquer um, querem saber se você tem a bicicleta mesmo", diz Mário.
Se a bicicleta tem valor pela originalidade, ele compra a briga. Teve um cliente, por exemplo, que pegou a 'bike' que foi do avô, bem enferrujada. "Devia ter uns 60 anos. Queria pintar de preto-fosco e colocar rodas verde-limão. Falei: você vai descaracterizar."
Mário sugeriu, então, que ele a limpasse e trocasse os seus pneus. "Tinha uma beleza por estar deteriorada. Não fiz [o serviço]. Era muito bonita, e o cara acabou com aquilo."

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