segunda-feira, 15 de abril de 2013

2004: uma odisseia no tempo por Jacyntho Brandão

abril 11, 2013 

O projeto “Poesia no ônibus” (de vida breve) certa vez estampou estes versos de Carlos Ávila:
Ônibus vem da garagem
e do latim –
Omnibus, para todos –
especial pra você,
espacial para mim…
A forma como cito sem dúvida inclui alguma traição, mas se usa aqui como um hino à linha espacial/especial para mim: 2004.

1984

Para ser exata, nossa saga deveria começar em 84, mas começa mesmo uns dois anos depois, quando me mudei para a ponta do Santa Lúcia entre a BR 040 e a Raja Gabaglia. A linha 2004 podia ser então meu sonho de mobilidade urbana, por passar a 100 metros de minha casa e deixar-me na porta da UFMG.
Numa noitinha de 86 ou 87 decidi experimentar esse casamento ideal. Postei-me no ponto um pouco antes das 7 e postado fiquei até depois de 8 e meia. Sem condução. Só restou então, perdida a hora e a razão da viagem, dar meia volta e ficar em casa…

1994

Dez anos depois a coisa tinha se modificado: para pior. Os assentos passaram a ser de um plástico duro e desconfortável – o que me fez supor desde então que na BHTrans ninguém anda de ônibus. O ponto perto de casa também mudou, obrigando a gente a atravessar ou a Raja (!) ou a BR (!!), sem nenhum sinal ou sequer uma faixa para pedestres (!!!) – dando-me a certeza de que ninguém, na BHTrans, na Prefeitura ou no diabo a quatro anda a pé por Belo Horizonte.

2004

Saindo da universidade à noite, estou no ponto da Antônio Carlos lendo sem preocupação. Então começa um rumor dos que haviam chegado depois de mim, porque o ônibus estava demorando. Uma espiada no relógio indica que estou lá há exatamente uma hora.
Desisti do 2004 e peguei a primeira linha que me deixasse no centro, resolvendo então fazer o que todos dizem que devemos: reclamar. O telefone da BHTrans estava num cartaz, em letras minúsculas. Depois de decifrá-lo, ligo do celular:
BHTrans.
Eu queria fazer uma reclamação.
Pois não.
É que fiquei aqui na Antônio Carlos uma hora, esperando o 2004, e ele não veio.
Qual o número do veículo?
Pois se eu estou dizendo é que o veículo não veio!
Sem o senhor me dar o número do veículo não posso fazer nada.
Como é que vou te dar o número se o veículo não veio?!!!
Faltava a pérola final:
– Então eu vou dar ao senhor o número da garagem, o senhor telefona para lá, pergunta o número do veículo e telefona de novo para mim para me dizer.
Desisti de novo, depois de constatar como a BHTrans pensa que a obrigação de fiscalizar as empresas é toda nossa e nada deles.

2013

De novo a conta não será exata. É que depois de tanto tempo, aconteceu o quase inacreditável: o 2044 não demora mais a passar. Pode ser que os corredores de ônibus da Antônio Carlos e Nossa Senhora do Carmo tenham ajudado. Continuam alguns pecados: além dos congestionamentos que nos prendem em outros lugares, na semana passada uma barata passeava placidamente a 10 centímetros de minha cara, debaixo daqueles cumbucas de lixo com aspecto deplorável.
Mas não é a barata que me impede de comemorar nem o fato de que não atrasar é pura obrigação de quem diariamente enche a burra com nosso dinheiro. O que me impede é que, nesses quase 30 anos, já dava para o 2004 ter-se tornado nada menos que uma linha de metrô! E finalmente teríamos a comemorar que nossa cidade se tivesse tornado um lugar civilizado. Mas isso, o nosso metrô, é uma coisa que, nem com a Copa do Mundo, o prefeito, o governador, os donos de empresas de ônibus quiseram implementar.
Sabendo que cada qual condenado a locomover-se em Belo Horizonte carrega sua cruz – a minha sendo o 2004 –, resta-nos a conclusão nada espacial/especial: para todos nós (omnibus nobis) o destino é morrer sem metrô, provavelmente num desses corredores de ônibus que nos querem fazer crer serão nossa panaceia.
Só mesmo coisa de gente que jamais entra num coletivo acreditar numa bobagem dessas!
* Jacyntho Lins Brandão

http://www.bhaz.com.br/2004-uma-odisseia-no-tempo-por-jacyntho-brandao/#comments
e-mail enviado por Vinicius Mundim

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