segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Lance Armstrong: O mundo quis ver o sobrevivente e não o impostor


26 de Janeiro, 2013por Rui Antunes
Emma O’Reilly evitava fazer perguntas quando via os quadros retirados das paredes nos quartos de hotel. A massagista da US Postal, equipa de ciclismo liderada por Lance Armstrong, sabia que aqueles hóspedes não se incomodavam com a decoração. Só precisavam de um prego para pendurar os sacos de sangue revigorado que queriam injectar no corpo.
A irlandesa trabalhou de perto com os ciclistas da equipa norte-americana, de 1998 a 2000. Além das massagens, ajudava na alimentação, na roupa suja e na maquilhagem: antes dos controlos antidoping havia que disfarçar as marcas das seringas.
Era uma mulher da casa. Após a etapa inaugural da Volta a França de 1999, a primeira das sete edições que Armstrong viria a arrebatar, estava no quarto dele quando o pânico se espalhou. O norte-americano tinha acusado positivo num controlo antidoping, pelo uso de corticóides, e discutia-se o que fazer. A substância só era permitida se resultasse de um medicamento autorizado e tendo a União Ciclista Internacional (UCI) sido informada com antecedência. Como nada disso tinha acontecido, a solução foi forjar uma receita.
Duas semanas depois, o Le Monde trazia à estampa o controlo positivo a Armstrong. A entidade máxima do ciclismo mundial encobriu-o, alegando que o ciclista tinha apresentado a devida prescrição médica prévia e, por isso, não tinha incorrido em qualquer ilegalidade.
«Já estive no leito da morte uma vez e não sou estúpido», atirou o norte-americano para despistar as suspeitas de consumo de doping. «É um jornalismo de abutres» – assim o catalogou Lance Armstrong, cujo mito podia ter morrido à nascença se não tivesse beneficiado da conivência da UCI. Em vez disso, nunca mais parou de crescer nos anos seguintes.
Em 2004, quando a história da receita manipulada veio a público através do testemunho de Emma O’Reilly, num livro dos jornalistas David Walsh (The Sunday Times) e Pierre Ballester (L’Équipe), o chefe-de-fila da US Postal já era dono e senhor do pelotão internacional. A fama de sobrevivente de cancro e campeão da Volta a França elevou-o a um pedestal onde não havia espaço para a desconfiança.
«Walsh é o pior jornalista que conheci. Ética, valores e objectividade não têm qualquer interesse para pessoas como ele», reagiu então o norte-americano. Foram todos processados por difamação, os jornalistas e a antiga massagista da US Postal, que o ciclista apelidou de bêbada e prostituta.
«É uma das pessoas de quem abusei e a quem tenho de pedir desculpa», admitiu Lance Armstrong na entrevista a Oprah Winfrey, há uma semana, na qual assumiu pela primeira vez o uso de doping nos sete triunfos na Volta a França (1999 a 2005). EPO, esteróides e transfusões sanguíneas faziam parte do seu «cocktail» proibido, precisou.
A agressividade dirigida em 2004 a Emma O’Reilly não era mais do que a força do hábito: «Estava apenas a atacar, Oprah. Porque o meu território estava a ser atacado. Toda a minha vida fui assim». Que o diga Christophe Bassons. O francês tinha sido o único ciclista ilibado de doping no escândalo da equipa Festina, expulsa do Tour em 1998, e a boa fama valeu-lhe um convite para escrever uma coluna de opinião durante a edição de 1999.
Depressa o seu nome cairia no esquecimento. Bassons cometeu o pecado de escrever que seria «difícil um corredor ‘limpo’ ganhar o Tour» e que parte do pelotão se sentia «enojado» com o desempenho de Lance Armstrong. Estava quebrada a omertà, uma espécie de código de silêncio que imperava na altura, como na Máfia. Na etapa do dia seguinte, ninguém lhe falava. Até que foi abordado pelo norte-americano.
«Pôs a mão no meu ombro e, sabendo que estava toda a gente a ver, mostrou quem era o chefe. Disse-me que eu estava errado, que não tinha o direito de ser ciclista profissional e que devia abandonar. E terminou com um fuck you», contou o francês à BBC Radio 5, no ano passado.
Aquele dia de Julho de 1999 marcou o adeus de Bassons ao Tour. Já no hotel, percebeu que nem os seus companheiros de equipa estavam do seu lado. Na manhã seguinte, tomou o pequeno-almoço e fez as malas. «Está melhor em casa», reagiu Armstrong, ao passo que o director da prova, Jean-Marie Leblanc, recusou transformá-lo num mártir. «Estou inclinado a acreditar que há um plano de marketing por trás disto tudo».
O jornal The Times tinha uma leitura diferente: «O último informador foi silenciado». E o ministro do desporto francês, Maria-George Buffet, não escondia a estranheza: «Em vez de lutarem contra o doping, estão a lutar contra o seu opositor».
Bassons tinha 25 anos e só aguentou mais dois no ciclismo, numa equipa de terceiro plano. A ruptura deu-se numa corrida na Dinamarca, quando «vários ciclistas» tentaram atirá-lo para uma ravina, segundo relatou ao site Bicycling: «Tornou-se perigoso. Percebi que não valia a pena continuar».
Por muitos indícios que a Volta a França de 1999 tivesse fornecido quanto à integridade de Lance Armstrong, o mundo preferiu acreditar no seu talento. David Walsh terá sido das poucas excepções. Em 2001, o jornalista publicava no The Sunday Times o seu primeiro artigo a pôr em causa os méritos do texano, ao denunciar uma relação profissional com o médico Michele Ferrari. O italiano tornara-se famoso em 1994 depois de ter defendido o uso de EPO em doses reduzidas, garantido que só os abusos seriam prejudiciais à saúde. «Mas também é perigoso beber 10 litros de sumo de laranja», alegava.
A investigação de Walsh concluía que Armstrong já trabalhava com Ferrari desde o meio da década de 90, ou seja, antes de lhe ter sido diagnosticado o cancro, em 1996. O norte-americano processou-o e o caso terminou com um pedido de desculpas do jornal. Na entrevista a Oprah, o antigo ciclista reconheceu agora que se iniciou no doping em meados dos anos 90. Sobre Ferrari, afirmou que «é um bom homem».
Em 2004, o médico foi condenado em Itália a um ano de prisão, com pena suspensa, por fraude e abuso da sua profissão (mais tarde foi ilibado). Na decisão do tribunal pesou o testemunho do ciclista Filippo Simeoni, que, desde o dia em que revelou ter-se dopado com produtos fornecidos por Michele Ferrari, tornou-se outra das vítimas de Armstrong.
A US Postal passou a responder a todas as tentativas de fuga do italiano durante as corridas e o mais insólito aconteceu durante o Tour de 2004, com o próprio camisola amarela a assumir a perseguição a um dos piores classificados – uma ‘manobra’ que nunca acontece no ciclismo.
Nesse dia, Armstrong não se limitou a ‘caçar’ Simeoni. Virou-se para a câmara de TV e fez um gesto de silêncio com o indicador na boca. «Quando choquei com o patrão, todas as portas se fecharam para mim. Ele humilhou-me e marginalizou-me para o resto da minha carreira», desabafou Simeoni após a confissão de Armstrong.
À luz do que hoje se sabe, é quase absurdo ter deixado a mentira chegar tão longe. Noutro artigo de fundo de David Walsh, de 2003, o jornalista garantia que o norte-americano tinha prevenido os médicos que o operaram ao cancro, em 1996, de que tomava substâncias dopantes. Betsy Andreu foi a fonte anónima por trás da informação e depressa Armstrong chegou até ela. O marido de Betsy, Frankie Andreu, era um dos melhores amigos de Lance até ter sido despedido da US Postal em 2000, por ter recusado aderir ao programa de doping elaborado por Michele Ferrari. E ela, que nunca escondera ao líder da equipa a sua discordância em relação a tais métodos – por temer que provocassem um cancro em Frankie –, era uma das pessoas presentes no hospital quando o texano partilhou aquela informação confidencial com os oncologistas.
«Cabra, maluca e feia» foram apenas alguns dos impropérios que ouviu da boca de Lance Armstrong, que sempre negou a existência dessa conversa e também não a quis confirmar na entrevista concedida a Oprah.
O que aceitou validar como verdadeiro foi uma notícia de 2005 do L’Equipe, que defendia a existência de resíduos de EPO na sua urina recolhida durante o Tour de 1999, numa altura em que a substância da moda ainda nem era identificada nos testes antidoping. A investigação posterior, a cargo da UCI, arquivou o caso. A Oprah, Armstrong reconheceu que doou dinheiro à UCI, mas negou qualquer acordo para encobrir as suas práticas ilícitas.
Apesar de todas as suspeitas ao longo dos anos, o ex-ciclista só caiu em desgraça após a Agência Antidoping dos Estados Unidos (USADA) ter divulgado, em Outubro passado, pormenores da investigação que o baniu para sempre de provas desportivas e lhe retirou os sete títulos do Tour. Abandonado pelos patrocinadores – que num só dia, segundo o próprio, o fizeram perder 75 milhões de euros [56 milhões de euros] em proveitos futuros, corre agora o risco de ser preso por perjúrio (mentiu sob juramento sobre o uso de doping), um crime que prevê até cinco anos de cadeia.
Besty Andreu e Emma O’Reilly foram peças-chave entre os 26 depoimentos incriminatórios, ao aceitarem testemunhar sobre acontecimentos que já haviam denunciado muitos anos antes, sem a devida consequência. Mas a popularidade de Lance Armstrong acaba por ter o mesmo fim que os 25 mil dólares em doping que um dia, contou O’Reilly à USADA, quase eram descobertos pela Polícia no autocarro da equipa: foi tudo pelo cano abaixo.
rui.antunes@sol.pt
http://sol.sapo.pt/inicio/Desporto/Interior.aspx?content_id=67083

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