segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Nova medição na Lagoa da Pampulha revela nível assombroso de sujeira


Com o cartão postal cada vez mais poluído, planos para 2014 estão em xeque

por Paola Carvalho | 23 de Dezembro de 2012
Jair Amaral/EM/D.A Press

Tubos despejam esgoto nas águas: solução distante

A paisagem continua bela, mas nunca esteve tão imunda e malcheirosa. Dejetos produzidos por 125 000 pessoas — um quarto da população residente na Bacia da Pampulha — ainda são jogados no principal cartão-postal de Belo Horizonte. A sujeira tomou conta dos quase 3 quilômetros quadrados de espelho-d’água. Pela primeira vez, segundo o Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), todas as medições feitas em 23 estações dos mananciais apresentaram níveis de coliformes fecais acima do tolerado pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). O laudo divulgado no último dia 13 é a comprovação lamentável do que o forte odor já denunciava: que os 295 milhões de reais aplicados no Programa de Revitalização da Pampulha (Propam) desde 2000 não conseguiram resolver o problema. Apesar de o quadro só se agravar, a prefeitura e o governo estadual garantem que as águas da lagoa estarão limpas até junho de 2014, antes da Copa do Mundo. O plano de despoluição prevê a ampliação de 75% para 95% da captação e do tratamento de esgoto na bacia, a retirada de quase 1 milhão de metros cúbicos de sedimentos acumulados no entorno da Ilha dos Amores e nos canais de entrada dos córregos Sarandi, Ressaca e Água Funda e a recuperação da qualidade da água pelos processos de ozonização e biorremediação. Os recursos financeiros para tudo isso, porém, ainda não estão garantidos. Prefeitura e estado ainda negociam com a União, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2), um financiamento de 102 milhões de reais. 

Especialistas ouvidos por VEJA BH põem essa promessa em xeque e dizem que vai demorar muito mais tempo para que os belo-horizontinos possam, enfim, ver a Pampulha despoluída. “O Lago Paranoá, em Brasília, tinha uma situação muito parecida com a da Pampulha, e o resultado das ações, como a retirada de esgotos, só começou a ser notado após cinco anos”, afirma Rafael Resck, mestre em ecologia aquática e consultor de recursos hídricos. Segundo ele, é preciso interceptar e tratar 100% do esgoto doméstico e industrial que hoje é jogado na lagoa. Só depois fará sentido limpar de vez o espelho-d’água. “Se não há saneamento básico, não tem como despoluir a lagoa”, diz o biólogo e professor da UFMG Ricardo Pinto Coelho. “Enquanto a questão do esgoto não for resolvida, a Pampulha continuará à própria sorte.”

Com a chegada do verão e das altas temperaturas, a situação tende a ficar ainda mais grave. “O calor potencializa todos os processos de decomposição de matéria orgânica na lagoa, piorando seu aspecto e principalmente o mau cheiro”, explica Resck. O biólogo Coelho ressalta ainda que o tempo quente estimula o crescimento das algas, sobretudo das cianobactérias. “A fauna que vive ali está sob um risco muito grave. Os peixes e os outros animais permanecem em constante ameaça.” Por ora, as medidas realizadas têm sido apenas paliativas. No início do mês, o governo estadual instalou uma sonda, próxima ao cais do Iate Tênis Clube, para monitorar a qualidade da água em tempo real. Executado pela Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais (Cetec) em parceria com o Igam, o projeto custou 480 000 reais. O equipamento flutuante, suspenso por boias, recolhe água e coleta dados como salinidade, pH e nível de oxigênio dissolvido. Também monitora os parâmetros meteorológicos de pressão atmosférica, radiação global, temperatura, umidade e precipitação. Usando um sinal de localização via satélite, o equipamento envia as informações coletadas ao sistema do Igam a cada trinta minutos. Toda vez que um indicador sai do controle, o instituto tem condições de pôr em prática medidas emergenciais, como a retirada das algas.

A Lagoa da Pampulha foi sempre um desafio para os governantes. Criada nos anos 30 pelo prefeito Otacílio Negrão de Lima, ela represou as águas do Ribeirão Pampulha em uma área ainda considerada rural. O objetivo era controlar enchentes e contribuir para o abastecimento da capital. Na década de 40, o prefeito Juscelino Kubitschek resolveu transformá-la em uma área de lazer e turismo, para estimular a ocupação da região norte da metrópole, convidando o trio Oscar Niemeyer, Burle Marx e Cândido Portinari para conceber o belo conjunto que hoje é reconhecido até fora do país. Poucos anos mais tarde, em 1954, a represa se rompeu nas proximidades do Aeroporto da Pampulha e foi preciso contar com a ajuda financeira do governo federal para reconstruí-la. Na década de 60, a ocupação desordenada de Belo Horizonte e da vizinha Contagem começou a comprometer a lagoa. Quanto mais terra e esgoto seguiam para os afluentes, menor ficava a capacidade do reservatório de água e pior se tornava a qualidade dela. De lá para cá, o processo só se agravou. Os córregos que mais poluem hoje são o Sarandi, que vem de Contagem, e seus afluentes Cabral e Petrobras. No último sábado (15), dois dias depois de o Igam divulgar seu triste relatório, a prefeitura lançou a candidatura do Conjunto Ar­­quitetônico da Pampulha ao título de pa­­trimônio cultural da humanidade, que é concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Vai ser preciso torcer para que a sujeira e o mau cheiro não acabem matando esse sonho.

http://vejabh.abril.com.br/edicoes/nova-medicao-lagoa-pampulha-revela-nivel-assombroso-sujeira-729492.shtml

Nenhum comentário: